Crônica da semana, por Marco Vasques

BRUCKNER E A INCERTEZA

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [15/10/2012]

Se teve uma coisa que perturbou a cabeça do compositor austríaco Anton Bruckner (1824-1896) a vida inteira foi a insegurança em si e em seu trabalho. Os biógrafos não param de atestar que era tanta a falta de confiança do gênio que ele permitia as revisões mais estapafúrdias, feitas pelos homens mais medíocres de seu tempo, em suas sinfonias. Faltava a Bruckner aquele instinto promocional que tanto impera em nossos dias. Hoje, o que mais se vê é um bando de artistas medíocres e espetáculos pobres viajando o mundo por puro interesse, composição de poder e troca de favores.

Nesse aspecto a vida parece sábia. O artista que não teme o alcance de seu talento, a profundidade de sua obra e de sua linguagem é, antes de tudo, um homem morto. A morte e a fé foram mais dois componentes sempre presentes na vida de Anton. O homem guardava em sua casa a caveira de um primo suicida. Quando em 1888 resolveram exumar os restos mortais de Beethoven e Schubert, um senhor, já corcunda, dribla os médicos e pega o crânio do último. Olha atentamente para o vazio e escreve num caderno uma e outra partitura que teria comungado no silêncio.

Antes de ser expulso pelos patologistas, se atirou dentro da cova de Beethoven, agarrou a caixa craniana e olhou para o vazio, até ser expulso, aos safanões. Então, como dissera Gustav Mahler: “Bruckner é metade gênio, metade pateta.” Era, na verdade, um inepto para a vida padronizada, pasteurizada. E tinha ainda o inferno de ter saído do mato para se ajeitar e se afirmar na metrópole. Pelo narrado já se vê que ele amava, com toda a sua timidez, Beethoven e Schubert.

Marcado pela religião, monstro que matou milhares de vidas e que atormenta mais uns bilhões de vivos, por ter erigido a culpa, o medo e a fogueira como fim aos decaídos, aos imorais e aos rebeldes. Bruckner compôs o que os críticos de música dizem ser catedrais sonoras. Hans Richter foi um maestro que conviveu com o “gênio esquisito”.

Em 1881, Bruckner ficou imensamente alegre ao ver um ensaio da Quarta Sinfonia, executada pelo maestro Richter, ao término, sentindo-se na obrigação de recompensar o que vira, deu uma moeda para Hans tomar umas cervejas. Vendo o inusitado do gesto, Richter faz um chaveiro com a moeda. Contam que essa peça o acompanharia por toda a vida. Bruckner não saberia, mas a música atonal, que marcaria os primeiros anos do século XX, teve seu início em suas catedrais sonoras. Ridicularizado em seu tempo, sobrevive porque viveu todas as incertezas humanas. As certezas são as necroses do tempo, da vida e da arte.  

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: