Os donos das portas – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica de Rubens da Cunha publicada no Jornal A Notícia em 17/10/2012

Os donos das portas

No ônibus coletivo se reúnem diversas tribos, diversos comportamentos. É possível pegar trechos de conversas, ou conversas inteiras. É possível ver gente discutindo a relação, falando mal da vizinha, dos companheiros de trabalho, dos parentes, das “pessoas más que há nessa vida”.
Num ônibus, cabem os adolescentes e suas risadas altas demais, como cabem os idosos e suas risadas contidas. Cabem aqueles que ouvem música sem fone como se estivessem em terra de surdos e cabe aquele que atravessa a viagem toda em profundo silêncio. Cabem as mães e seus filhos ranhentos. Cabem todas as crianças que adoram ir no meio do ônibus biarticulado, ali onde o ônibus vira parque de diversão.
Cabe no ônibus o cadeirante, o engessado, o trabalhador e o que apenas anda pela vida fugindo de trabalho. Nesse lugar, também transitam os tipos que pedem coisas. Há aqueles que distribuem um papel, às vezes um papel e um objeto qualquer. No papel um pedido de socorro, de ajuda, de solidariedade. Depois ele passa recolhendo os papéis e o que mais vier. Há os outros que se utilizam da voz e pedem, pedem para todos. Um teatro urbano que criou o clássico “eu podia tá matano, eu podia tá robano, mas tô aqui pedino uma ajuda pra vocês, etc e tal”.
No ônibus também estão o cobrador e o motorista. A cidade dos príncipes e do trabalho extinguiu há muito tempo a função de cobrador nos ônibus, mas em outras eles ainda estão lá, auxiliando a descida e a subida, às vezes evitando confusão, às vezes pedindo um “passinho atrás”, às vezes fazendo vistas grossas ao menino de sete ou oito anos que passa sob a catraca. Os motoristas seguem na sua rotina de parar a cada ponto, de enfrentar um trânsito em que muitos o consideram um atrapalho e não não uma solução. Antes, um reduto masculino, agora os ônibus são capitaneados por mulheres também. Longa vida à indiferença que tem que haver nos passageiros: pouco importa quem está dirigindo, desde que o faça com segurança.
Porém, há um grupo de pessoas que, talvez, não devesse entrar nos ônibus: os que se acham donos das portas. São aqueles que não descerão nos próximos dez pontos, mas permanecem naquele metro quadrado na frente da porta como se somente ali pudessem respirar. Ouvem dezenas de vezes um “vai descer aqui?” e não mudam, não arredam o pé daquele território que, a princípio, deveria ficar livre para a passagem.
Eu queria entender muito que medo os move? Seria o medo de que, se saírem dali, outros ocuparão lugar tão sagrado e eles nunca mais poderão descer do ônibus? Seria o fato de que não querem se misturar com gente que ocupa espaço menos nobre no ônibus? Estão apostando com o “amigo imaginário” para ver quem desce primeiro? Sempre que vejo uma dessas pessoas fico tentando compor o motivo por tanto apego a esse espaço.
Bom, para terminar, acredito que as que ocupam o espaço das portas só se equivalem aos que se negam “dar um passinho para trás”. Um dia retorno a eles.

Rubens da Cunha

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