Crônica da semana – Por Marco Vasques

AS MORADAS DE BEETHOVEN

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [22/10/2012]

Não tem jeito. Ainda que nada saibamos sobre Ludwig van Beethoven (1770-1827), acabamos cruzando com ele na vida. Seja ao assistir um filme, como, por exemplo, A Laranja Mecânica, seja numa propaganda de televisão, numa espera telefônica ou, até mesmo, num caminhão que passe na sua rua vendendo picolé, detergente ou roupas. O compositor alemão já foi tema de vários filmes, alguns deles controversos, como é o caso de Minha Amada Imortal que, segundo o pesquisador norte-americano Maynard Solomon, não passa de uma ficção com um punhado de “piruetas psicanalíticas”.

            Sabe-se que em 1787 ele partiu para Viena com o objetivo de estudar, por duas semanas, com Mozart. Tal encontro não aconteceu porque sua mãe morreu e ele teve que voltar à Alemanha. Mozart faleceu em 1791 e Beethoven retornou a Viena somente cinco anos após a morte de sua mãe, ou seja, em 1792. Segundo os biógrafos mais detalhistas, morou em nada menos que 73 lugares diferentes na capital artística e econômica do mundo da época. As mudanças eram tão frequentes que ele mesmo dizia aos amigos: “escrevam no envelope das cartas somente para Ludwig van Beethoven, Viena”.

            A essa altura ele já era considerado o melhor pianista dos mais de 300 em atividade. Era, para espanto de muitos, um grande improvisador. Para quem pensa que plágio é coisa moderna, engana-se. Eis um relato de uma de suas cartas, escrita em 1793: “aqui em Viena de vez em quando há quem, tendo eu devaneado ao piano durante a noite, anote muitas das minhas variações e no dia seguinte se vanglorie delas.”

            Na infância, foram raros os dias em que não levava chicotadas ou ficava de castigo no porão por ser considerado, pelo pai, um inábil para a música. No auge de sua capacidade criativa, por volta de 1800, foi arrebatado pela surdez. Tentou disfarçar, e conseguiu com algum sucesso, até 1802, quando entrou na mais cruel de suas moradas, no mundo em que os sons não lhe eram mais possíveis.

            No entanto, a surdez, que levaria qualquer humano ao cerceamento do trabalho com o som, fez com que os dez últimos anos de sua vida fossem os mais revolucionários da história da música. Como entender que parte da Nona Sinfonia foi escrita por um homem que jamais a ouviu? Como entender o fato de Beethoven assistir a ensaios e, apenas com o olhar, atemorizar os violinistas no menor deslize? Como entender todas as sonatas e sinfonias harmonizadas por um homem que só as ouvia pela carne? É provável que Beethoven esteja aí para nos dizer: a melhor, de todas as moradas, é a morada do silêncio. É nela em que os homens dormem, dançam, cantam, amam e fazem música.

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