O frio de dentro – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica de Rubens da Cunha publicada no Jornal A Notícia em 24/10/2012

O frio de dentro

Chove lá fora e aqui faz tanto frio. A canção ressoa na memória e encosta na realidade. É outubro, chove lá fora e faz algum frio. Talvez o frio de dentro seja uma acontecimento maior, ainda não resolvido, apesar das leituras, das amizades, dos encontros nos finais de noite. Sempre houve um frio lá dentro, por mais que se finja a sua inexistência, ou a sua morte, o frio lateja os lados internos dos pulmões, a quarta e quinta vértebras, o intestino delgado, a panturrilha, talvez os lóbulos das orelhas e a nuca. Nunca se sabe, nunca se tem a localização exata do frio que habita dentro. São pedaços apenas, rastros, como se o frio fosse um exilado, um retirante contínuo, um nômade montando sambaquis e fazendo inscrições rupestres nos ossos.

A cada dia, é preciso caçar o frio, é preciso criar armadilhas para que ele não se sinta em casa. A cada dia, é preciso engolir fatias de sol, de azul, de coisa qualquer luminosa e quente, é preciso cantar, vasculhar as delicadezas, olhar os ipês, comer pitangas na beira da estrada, assumir as mínimas felicidades que se nos acometem. Talvez assim o frio dentro não procrie, não se adone da nossa parte mais frágil: o coração. É uma luta diária, ainda mais agora, nesses tempos inquisitoriais, em que o frio externo anda comandando a política, o Estado, a vida privada, qualquer avanço nos direitos que prejudique os privilégios dos dominantes é tratado como se fosse o fim da família, o fim da vida, o fim dos tempos.

Seria melhor mesmo que se acabasse logo o tempo em que o frio de dentro dos reacionários está conseguindo sua vitória, está se impondo aos berros nos palcos, púlpitos, palanques. Impondo à democracia a necessidade de escolher o menos pior, como se o pior pudesse ser menos. Não é apenas na vida pública que isso acontece. No âmbito privado também: a cada vez que se tem que escolher entre os piores, os que causarão menos danos, a cada vez que temos que optar por algo que “não está bom, mas poderia ser pior”, o frio de dentro fortalece-se, agarra mais um órgão, encosta na pélvis, passeia pela testa, infiltra-se nos mamilos. O frio de dentro tem artimanhas próprias, sabe esconder-se diante de novas perspectivas, diante da possibilidade de mudança, sabe que as chuvas lá fora continuarão, que os gritos escuros continuarão, cada vez mais disfarçados de moral, de bons costumes, de religião, de egoísmo.

Chove lá fora e aqui faz tanto frio. Talvez mais do que o necessário, mas ainda não o suficiente para que se congelem os dedos, ainda não o suficiente para que o futuro seja apenas uma cegueira e uma espera da morte. O frio de dentro, apesar de tudo, ainda terá que fugir mais um pouco, terá que sucumbir outra vez frente às cordas vocais, território onde nasce a palavra que o denuncia, que o faz estremecer. Chove lá fora e aqui faz tanto frio, mas não tanto que impeça, mais uma vez, a presença cálida da esperança.

Rubens da Cunha

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