Crônica da semana, por Marco Vasques

CLARA E SCHUMANN

POR MARCO VASQUES

Publicada no jornal Notícias do Dia [29/10/2012]

O amor é abismo. A vida é uma nau sem rumo cheia de desesperos. Ninguém escapará ileso; todos teremos nossas tragédias, nossas lágrimas e dias de desconforto. Alguns conseguem conviver com seus fantasmas, tomando remédios, bebendo, trabalhando, pintando, escrevendo, enfim, sempre será preciso uma tarefa purgativa para não cairmos no abismo de nossos desesperos. Há homens que encaram suas agruras de frente como se estivessem numa tourada. Miram o bicho nos olhos e dizem: que venha a mim toda a dor, todo o sofrimento que sem eles nada sou.

Robert Schumann (1810-1856) foi um desses homens que agarrou o touro pelos olhos e viveu intensamente no abismo e na loucura do mundo. Sua música, filiada ao romantismo, atesta aquilo que ele escreveu em seu diário: “não concebo nenhum criador que distinga sua criação de sua vida”. Sua mãe era musicista e seu pai era um livreiro que chegou a traduzir Byron e Walter Scott para o alemão. Schumann viveu entre a literatura e a música. Foi um dos primeiro críticos de música e por dez anos dirigiu, sozinho, um jornal dedicado à crítica musical.

A primeira fratura veio aos 15 anos, quando presenciou o suicídio de sua irmã Emilie. A segunda, um ano depois, com o falecimento do pai. A partir daí virou um colecionador de silêncios. Aos 20 anos, quando definitivamente decidiu que ia se dedicar à música, começou a estudar com o renomado professor Friedrich Wieck, pai de uma virtuosa pianista de apenas 11 anos, chamada Clara, por quem se apaixonou. O filme “Sinfonia da Primavera” relata, com alguma competência, alguns aspectos da vida amorosa de Clara e Schumann.

Inábil para a vida, não sabia ganhar dinheiro. Vivia de pensão em pensão, sempre com uma composição em andamento e tantas outras perdidas. Mesmo amando Clara, tomou outra mulher por noiva. No entanto, o abismo o recuperou e desfez o namoro para ter Clara como mulher. Para se casar, teve que entrar na justiça e obrigar o antigo professor a aceitar a comunhão do músico plebeu com a princesa virtuosa. Abismaram-se. Sustentado por Clara, que viajava por toda a Europa para concertos, viveu, também, à sombra de seu talento. E isso também o atormentava.

O tratamento da sífilis, com mercúrio, teria aumentando o distúrbio mental bipolar. Desesperado, num dia de inverno, se jogou no Reno e foi internado num hospício de onde só sairia morto. Brahms, apresentado ao mundo musical por ele, se tornou seu fiel escudeiro. Se o poeta Hölderlin, depois de louco continuava a adorar Diotima, o mesmo ocorreu com Schumann e sua Clara. O abismo é violação. A vida, esta retina tatuada de dor.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: