Os Carros e o Futuro – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 09/11/2012

Os carros e o futuro

Entre os desafios a serem enfrentados pelos novos prefeitos, talvez o mais urgente seja a mobilidade urbana. As cidades estão parando. A cultura do carro está em alta: novas fábricas, novas formas de financiamento, aumento da renda das pessoas, o carro ainda visto como um objeto de status, um carro para cada membro da família, o transporte coletivo tratado como algo para os pobres, para os infelizes. Enfim, há todo um apego a esse objeto de culto que no Brasil será muito difícil de mudar. Penso que o motivo, por mais irônico e patético que seja, sempre nos acompanhou: o nosso atraso. Europeus, americanos, japoneses, tiveram sua relação completa com o carro, usufruíram dele até os limites, agora estão se livrando (principalmente os europeus), estão pensando em cidades mais voltadas aos pedestres, estão criando pedágios urbanos, investindo em meios de transportes coletivos.

A ironia está aí: quando chegamos perto do carro, da possibilidade dele estar na vida de muita gente que sempre sonhou com isso, ele é agora um incômodo, o vilão das cidades, o motivo de discussões, de novas leis proibitivas, agora que o brasileiro pode possuir um carro não compensa mais fazer autoestradas, elevados, viadutos, pois esse caminho já se mostrou inválido em muitos lugares. Além disso, está cada vez mais caro manter um, dois ou três automóveis na garagem. Como também nunca pensamos a longo prazo, a maioria das cidades tem praticamente as mesmas ruas há 30 anos, 40 anos, (vide Joinville na parte central) porém com uma frota que aumentou exponencialmente. O carro, símbolo de mobilidade, rapidez, está se tornando um sinônimo de lentidão. Os dez minutos de antes agora são meia hora, em alguns lugares 40 minutos a uma hora e meia, isso em cidades médias como as catarinenses, que ainda nem sonham com aqueles congestionamentos quilométricos das metrópoles.

Como resolver isso? Que decisão tomar, se a instalação de uma nova fábrica de automóveis é saudada como um grande benefício para a região? Como fazer com que a população, que acaba de realizar o sonho de ter o carro, abdique dele e passe a usar o transporte coletivo novamente? Como alterar a cabeça das autoridades responsáveis para investir maciçamente em transportes públicos de qualidade e a preços justos? Como fazer com que o transporte público seja um bem público e não uma peça de interesse privado?

Essas são algumas questões que nortearão nossas vidas nos próximos anos. Toda vez que vejo uma cegonheira atravessando a ponte de Florianópolis, a rua João Colin, ou o centro de Blumenau ou Jaraguá, tenho a sensação que em vez de carros, elas estão trazendo o caos, um caos que antes se anunciava nos horários de pico, mas que agora já não tem tanto horário para acontecer. Para evitar esse caos, temos que enfrentar a frustração de saber que mal chegamos no “carro pleno” e já temos que nos livrar dele.

Rubens da Cunha

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Uma resposta para “Os Carros e o Futuro – Crônica de Rubens da Cunha

  • Silvia Maria Gunther

    Rubens, que delícia ler vc. Saudades. Estive em Jlle e foi muito difícil ir da Av Beira Rio até a Rua do Príncipe de carro. Beijo.

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