“O Encontro” – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica de Rubens da Cunha, publicada no Jornal A Notícia em 14/11/2012

O ENCONTRO

Para C.

Vou me encontrar com ela daqui a duas horas. Faz tempo que não nos vemos, justo nós que nos víamos quase todos os dias. Por certo, não falarei de saudade, dos tempos em que escondíamo-nos nos bares, rateávamos a cerveja, ríamos daqueles conhecidos que pouco sabiam da nossa cumplicidade. Ainda somos cúmplices apesar das cidades que nos separam, ainda nos temos por perto apesar dos tempos largos em que não nos falamos.

Ela sempre esteve comigo, dentro mesmo, como nenhuma outra esteve, e não falo de amor, casamento, paixão, melhor, falo, pois o que continuamos tendo é justamente isso: um adentrar-se sempre, um carinhar-se mais fundo do que podem supor as almas vãs e as leis casamenteiras e monogâmicas dos humanos. Vou me encontrar com ela, que passa hoje à noite por perto de onde estou. Ela me avisou que viria, que queria me ver, não para fazer aquele roteiro de velhos conhecidos que se encontram e ficam nas rememorações, nos “no nosso tempo é que era bom”. Nosso tempo é agora e o futuro, nos encontraremos mais uma vez pra isso, para que o que fomos seja apenas um lastro sobre o qual encaminharemos novas entabulações, novas sutilezas para as quais quase nem há palavras. Talvez duas ou três metáforas: um vento, um escorpião, dois cavalos tênues, afora isso nada demais, apenas um encontro num lugar aberto, perto do mar, à noite. Nada que já não tenha acontecido e que voltará a acontecer, pois que somos dados a isso: encontros e risos, alguns fortuitos outros mais secretos, mais inconfessáveis ao público. Mas sempre encontros tatuadores de alegrias e promessas. Encontrar-nos-emos para além dos limites da mesóclise, para além do limite dos nossos corpos já beirando a meia idade. Somos os mesmos de antes, não há envelhecimento em nossos encontros, apenas madurezas, dessas de fruta no pé, dessas que desfazem a solidão da boca. Somos duas pessoas que se encontram, que desabam seus caprichos, que armam seus abismos para que o outro salte. E saltamos, saltamos sempre, pois que lá embaixo um é a rede do outro.

Somos dois corpos-rede se espraiando nesses vinte anos de encontros. No entanto, o que são vinte anos? O que é essa medida inútil nos calendários anualmente descartados? Nada, em nós não há descarte, não escamoteamento, somos o que somos, duas inteirezas.

Como naquela canção que talvez ela nem conheça, e que veio agora que ando fazendo essas anotações antes do encontro que virá: “Para quem bem viveu o amor, duas vidas que abrem não acabam com a luz. São pequenas estrelas que correm no céu, trajetórias opostas sem jamais deixar de se olhar. É um carinho guardado num cofre de um coração que voou. É um afeto deixado nas veias de um coração que ficou. É a certeza da eterna presença da vida que foi, na vida que vai”.

Eis-nos, encontrados e plenos, ainda e outra vez.

Rubens da Cunha

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