Crônica da Semana – Por Marco Vasques

OS INTELECTUAIS DE BUNDÓPOLIS

POR MARCO VASQUES

Publicado no jornal Notícias do Dia [26/11/12]

Existem duas manias inerentes aos intelectuais de Bundópolis. Por elas podemos reconhecer as mentes excelsas que pululam pelos bares da cidade. A primeira é atribuir genialidade a si mesmo com tanta seriedade que um ator jamais alcançaria o ridículo da cena. A segunda é a verve destruidora. Eles adoram falar mal de todo mundo. O problema é que eles acham que só eles estão enxergando os erros do mundo, das coisas e das pessoas. E mais, falam dos erros como se eles não fossem humanos, tão humanos quanto os supostos acertos.

No fundo, os raciocínios que eles próprios dizem serem brilhantes, são comuns a qualquer dona de casa perspicaz, via de regra, intelectualmente mais honesta que as panaceias ofertadas por eles. Esse tipo de gente que tem a solução para todas as doenças e todos os defeitos é muito comum em Bundópolis. Eles sabem como resolver tudo. Não existe assunto que lhes escapem; vão da democracia à política cultural, imbuídos de tanta verdade que nem percebem que se transformam em ditadores.

A mais irritante de todas as manias é o binarismo absurdo em que eles vivem, sem ao menos se dar conta de que, por característica natural, como diria Shakespeare, as pessoas são poços de contradições. O gênio inglês chegou a colocar na boca de um de seus personagens: “se me contradigo é porque sou vasto”.  Mas os intelectuais de Bundópolis, por certo, não estão nem aí para Shakespeare. Eles são mais binários que computador de plástico. E, não raro, têm o rabo mais preso que gato de porcelana.

Com eles a coisa é assim: ou você está de um lado, o deles, ou você está do outro lado. O outro lado é constituído por pessoas que erram, que possuem defeitos e que se contradizem. Enfim, os intelectuais de Bundópolis vivem em bandos e clubinhos. A coisa é pior que Campeonato Brasileiro. Volta e meia alguém discorda deles e é rebaixado à série Z. Quando se encontram nos bares, escolhem alguém para malhar e trucidam a figura em questão. São os chamados alcoviteiros da província, mas com estilo, óculos, cachimbo, bengala, cerveja de trigo, uísque…

Eles adoram escrever cartas a governantes; ditar regras óbvias; iluminam seus adulados; andam em bando; frequentam sempre os mesmos bares; apontam o dedo na ferida de todos; têm pensamentos lógicos, mais tão lógicos que chegam a meter inveja à circunferência do umbigo; são incapazes de entender os vazios e os motivos dos outros; não aceitam a contradição; falam sempre em nome de uma classe, que geralmente não tem classe alguma; são irritantemente pedantes. Enfim, são os coronéis das verdades.

 

 

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