Crônica da Semana – PERTINENTÍSSIMOS

PERTINENTÍSSIMOS

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias de Dia [03/12/2012]

Quando Machado de Assis, em 1857, solicitou aos responsáveis pelo Conservatório de Arte Dramática que apertassem os cintos nas seleções da peças que obtinham qualificação para subirem tanto no palco do histórico Teatro S. Pedro de Alcântara – liderado pelo ator João Caetano – quanto no inovador e polêmico Ginásio Dramático, foi acusado de censor e autoritário por autores, atores, críticos e historiadores acostumados ao binarismo reinante na época. Bundópolis sofre o contágio quase generalizado do binarismo milenar tão incrustado na cultura bundonopolitana.

O Teatro S. Pedro de Alcântara ainda imperava absoluto com seus melodramas e dramas históricos, com o olhar dirigido ao passado, com suas atuações exageradas e enredos que exigiam dos atores suspiros, gritos, gestos expandidos e o uso de muito punhal. Já o Ginásio Dramático, nesses tempos, absorvia a arte realista, em oposição à arte romântica que João Caetano, ator talhado para papéis eloquentes, mantinha no S. Pedro de Alcântara.

Os realistas buscavam uma arte com um fundo moral que objetivava educar a sociedade e revelar os “maus costumes”. Tudo para manter a ordem familiar, religiosa e social. Viam e declaravam explicitamente que o teatro deveria servir como propaganda e disseminar os “bons costumes”. Objetivaram uma atuação de gestos contidos, sem sobressaltos e tentaram, de algum modo, transformar a representação teatral o mais próxima possível do cotidiano e do que chamam de real-concreto.

Tanto Machado de Assis quanto José de Alencar aderiram ao realismo e, embora flertassem com João Caetano – sobretudo Alencar -, sempre afirmaram que o belo não é uma questão de escola literária. Por isso se deleitavam e frequentavam o Teatro S. Pedro de Alcântara e o Ginásio Dramático. Prova inconteste de que os dois gênios de nossa literatura, embora adeptos da arte moralizante no teatro, já sabiam, há quase dois séculos, que o binarismo é uma doença para o homem.

Os dois romancistas defenderam, também, que a corte apoiasse a arte teatral. Sim, eles chegaram a sugerir a existência de uma trupe permanente paga pelo estado e a criação de uma escola para formação de atores. Machado queria sim investimento público pesado na arte, mas com critérios que garantissem algum labor estético diferenciado. A julgar pela grande maioria de peças, financiadas pelo poder público, que pululam em nossos palcos, os questionamentos feitos pelo autor de “Dom Casmurro”, “Quincas Borba” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas” são mais que pertinentes, são pertinentíssimos, como diria José Dias, um personagem machadiano.

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