A juventude perdida? – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica de Rubens da Cunha publicada no Jornal A Notícia em 05/12/2012

A juventude perdida?

Dias desses fui de carona para Florianópolis com dois jovens universitários. Durante a viagem eles lançaram algumas pérolas conservadoras que os jogariam fácil a um desses períodos terríveis da história, tais como a Alemanha dos anos 1930 e 1940, ou a era vitoriana na Inglaterra. O rapaz disse que se fosse policial mataria qualquer um que tivesse numa atitude suspeita, salientou que foi por isso que ele está estudando engenharia e não foi ser policial. Eu não sabia se ria ou se chorava. E o pior é que eu ouvi isso depois de, coincidentemente, assistir dois filmes que tinham como pano de fundo sistemas prisionais: um italiano e outro austríaco. Quase que eu mandei ele assistir tais filmes, mas depois eu lembrei que um dos assuntos anteriores era cinema e o garoto nunca tinha saído das fronteiras fílmicas americanas. Fiquei quieto.

A moça disse que adoraria ver todas as favelas explodidas, salientou que não era nada contra os pobres no morro, mas apenas que achava aquilo tudo muito feio. Estávamos chegando em Florianópolis, e no meio do comentário ela ainda disse que a solução seria mandar todo o povo lá pra Palhoça. Eu não sabia se ria ou se eu chorava. Talvez ela também deva achar que em Joinville não tem favela, pois, por graças da natureza ou de algum outro fator, os pobres da cidade não ficam enfeiando as partes nobres, evitando que assim seus nobres olhos vejam a pobreza de perto. Eu pensei em argumentar, mas a desesperança em por qualquer pensamento menos esquemático naquela cabeça me tomou por completo. Fiquei quieto.

Confesso, ando meio com medo da onda conservadora que está tomando a juventude atual, pois percebo que esses exemplos não são uma exceção infeliz, mas parte de um corpus bastante barulhento que quer um mundo menos diverso e justo. Meu foco de leituras está girando em torno dos anos 60 e, vendo agora o posicionamento político, ético, estético de muita gente jovem, há um retrocesso visível. Tem jovem usufruindo das diversas conquistas daquela época, mas que daria um orgulho danado ao pessoal da TFP. E não é apenas na visão de mundo que pressupõe a morte de todo aquele em atitude suspeita (o que seria uma atitude suspeita?), ou que os problemas acumulados pelas diferenças sociais e a incompetência política possam ser resolvidos com a explosão das favelas, mas, também, todo um conservadorismo que impõe que regras morais ou religiosas sejam tratadas como princípios legais, (Torquemada manda lembranças!), além de toda uma grita contra qualquer grupo que esteja conseguindo direitos historicamente negados. O que realmente assusta é que muitos desses jovens, (não raro, brancos e de classe média, por que será?) tem acesso às melhores escolas, mas parecem que fugiram todos das aulas de história, e, sem conhecimento nenhum, andam por aí querendo matar pessoas “suspeitas”, explodir favelas e impor a sua “normalidade” social, sexual, religiosa e cultural a todos. Definitivamente, não dá pra ficar quieto.

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