Edital Igual ou Diferente, por Marco Vasques

EDITAL IGUAL OU DIFERENTE

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [10/12/2012]

Sociólogos do mundo inteiro atestam que para se diminuir e minimizar o racismo – portanto, também a ideia de raça -, deve-se, antes de tudo, aniquilar e implodir cada vez mais a afirmação desta ou daquela raça. Em tempos do politicamente correto nasce, no Brasil, uma polêmica que merece algumas considerações. A quizília em questão é a formulação, pelo Ministério da Cultura, de editais específicos para negros.

 É preciso, antes de tudo, dizer que o nosso racismo é constituído através de uma dominação histórica que sempre atirou os negros ao jugo e à chibata dos brancos. É necessário falar que nossa própria estrutura social é racista e hipócrita. E é importante não esquecer, mais que nunca, que precisamos reparar os mais de 400 anos de dominação dos brancos sobre os negros, oferecendo a eles a possibilidade de estudar, morar e viver com a qualidade que todo vivente merece, seja ele branco, negro, pardo ou índio.

No centro dessa discussão, as opiniões se dividem. Pensadores consideram que a decisão do MinC é racista, justamente por alimentar a segregação, quando, segundo eles, o correto seria estreitar as fronteiras raciais. Há, por outro lado, os que defendem com ardor as políticas afirmativas. Dizem que o mercado de trabalho, as universidades, enfim, em todos os setores há um predomínio do branco em detrimento do negro.

 Não se trata aqui de buscar uma verdade, porque as questões envolvendo o episódio são sutis e merecem cautela e muito caldo de galinha. Acreditamos que grande parte das pessoas, exceto os xiitas anacrônicos, pensa que os problemas sociais e culturais do Brasil não se restringem, somente, a questões raciais. Ninguém, até o momento, quis enfrentar a questão de fundo, ou seja, educação, saúde, trabalho, cultura, moradia de qualidade sem distinção, ataque à corrupção e à concentração de renda.

Se os editais atingirem os negros que já participam de editais e que já estão inseridos no setor cultural, nos parece que o tiro saiu pela culatra. Se, pelo contrário, tiver como objetivo a formação cultural de jovens negros sem acesso à cultura, o edital poderá ser visto como rota de fuga à estrutura opressora. Sem se encarar as questões de fundo, de estrutura, editais dessa ordem nada resolvem. Não se faz escritores e artistas por decreto. Cruz e Sousa, Lima Barreto e Machado de Assis não precisaram de editais para figurar entre os mais brilhantes escritores de nossa história. Quando saúde, moradia, educação deixarem de ser o sonho da maioria dos negros, brancos, índios e toda sorte de vivente, talvez vivamos sem apartheid.

 

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