O corpo, essa armadilha – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 12/12/2012

O CORPO, ESSA ARMADILHA

O antropólogo Ernest Becker, autor do brilhante “A Negação da Morte”, dizia que “o homem quer ser um deus com o equipamento de apenas um animal, e por isso vive de fantasias.” O equipamento é o corpo, espaço que envelhece, que se deteriora a cada dia, mas é tudo o que temos ou tudo o que somos, pois sempre nos reverbera a pergunta: temos um corpo ou somos um corpo? Outro antropólogo, Marcel Mauss, também pensava o corpo como o primeiro e mais natural instrumento do homem. O corpo é um objeto técnico ao mesmo tempo em que é um meio técnico. Assim, esse objeto técnico é a matéria mais imediata do que somos, a matéria onde nos fazemos e nos reconhecemos nas nossas individualidades, ao mesmo tempo, em que estamos inseridos num mundo em que, cada vez mais, predomina a destruição das integridades, do absoluto, da essência, pois também somos uma coletividade, uma massa.

Um dos pensadores mais intensos sobre a questão do corpo é Georges Bataille, que via sempre o corpo dividido em alto e baixo. Para ele, ainda que o sangue percorra todo o corpo, o homem tomou partido daquilo que se eleva para o alto, por isso a vida humana é, erroneamente, considerada como uma elevação. A terra, o barro, o baixo são os princípios do mal, enquanto a luz, o céu, o alto são a personificação do bem. Assim, o homem vive com os pés no barro e a cabeça voltada para a luz. A verticalidade humana fez com que desejássemos o alto, porém, estamos com os pés fincados no baixo.

Para Bataille, esse trânsito entre o perecível e o ideal, essa ida e volta constante, faz com que passamos a desdenhar a parte de baixo do corpo, justamente a parte mais humana. Uma das melhores reflexões de Bataille é sobre o dedão do pé. Para ele, é a parte mais humana do corpo, pois de todos os nossos órgãos é aquele que mais se diferencia dos macacos. Outra parte do corpo bastante relegada ao esquecimento, ao nojo, à impureza, ao mistério gozoso ou doloroso é o ânus. O mesmo Bataille dizia que a noite é o ânus do sol e o “sol só ama a noite e dirige a sua luminosa violência, falo, ignóbil, para a terra; mas não consegue ainda assim chegar aos olhos e à noite, apesar das imensidões terrestres noturnas estarem constantemente a dirigir-se à imundície do raio solar”.

De maneira geral, o ânus ainda é a noite do nosso corpo, a parte não iluminada, perdida debaixo das roupas, da vergonha, da demolição das vaidades, da escatologia, do humor infantil das flatulências e do humor rasteiro e preconceituoso de ordem sexual.

Somos um corpo, trânsito ininterrupto entre baixo e alto. De um lado, as vicissitudes do coração e do pulmão, com toda a sua gama de metáforas e símbolos, além da cabeça e sua concentração de forças: paladar, visão, audição, pensamento, consciência. De outro lado, os baixos, os pés, aqueles que tocam a terra e os órgãos que produzem os nossos estrumes diários: estômago, intestinos, ânus.

E no meio de tudo, os órgãos sexuais, mas aí entramos em outra conversa…

Rubens da Cunha

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