Crônica da Semana, por Marco Vasques

CINZA É A COR DO TEMPO

POR Marco Vasques

Publicada no jornal Notícias do Dia [17/12/2012]

 

Ela sonha. Primeiro as paredes brancas são imensos relógios. Toda matéria é número. Nascimento. Morte. Hora imprópria nascer no próprio sonho. Tudo escorre nos ponteiros. Os dias inseguros. Buracos entre um ponteiro e outro. Cinza é a cor do tempo. Uma janela toma a forma do quarto. O rosto do amado, uma máquina. Seria ele a sua imagem ou o seu pensamento sobre a imagem. Desvendar o intacto. Abraçar o perigo. As mãos vazias se debatem no escuro das imagens. Pássaro sem pouso são seus olhos que agora veem nos inúmeros relógios que avolumam a parede do quarto a sua face com a face de seu desejo.

Nos números, os olhos se alternam. Seus olhos negros seguidos dos olhos castanhos pontuados de dores masculinas. O tempo distorcido. O tempo estendido e multiplicado no pequeno catre anuncia o dia que, lá fora, vive a alegria falseada de dezembro. Imóvel. Nos olhos, as imagens, velozes, não param de surgir: milhões de sorrisos amarelos, multidões comprando presentes, caridade, a música ridícula de Natal tocando em tudo o que é loja, a cidade iluminada, pinheirinhos, ceias, rezas e o comércio de afetividades em alta nas bolsas de valores. Ela pensa em levantar, o corpo não responde.

Os relógios continuam a persegui-la. Não mais o rosto do amado como imagem de fundo, mas uma sucessão de vidas em descompasso com as cenas diárias. Um senhor de 90 anos passa cambaleando com imensos cigarros acesos nos lábios. Uma velhinha dá à luz dezoito meninos e três meninas. Tenta convencer a si mesma da impossibilidade de tudo que vê, mas ainda está entre o sonho e o desejo de acordar. Reza num cemitério de gatos, vai ao velório de cães de cinco olhos, corre por montanhas espinhosas quando perseguida pelas águas e, quando chega próxima do próprio esquife e reconhece a própria morte, deseja ficar por ali e saborear seus últimos momentos.

Quando o sonho parece colocar em perigo o jogo entre o mundo orgânico e o mundo feérico, acorda abruptamente. Ela acorda, fica na cama por algum tempo olhando as paredes brancas de seu quarto. Tenta recompor tudo que sonhou ou que imaginou ter sonhado. Procura fazer alguma conexão do que lembra com o próprio futuro. Sabe apenas que, por alguns minutos, permaneceu naquele torpor entre o dormitar e o estar consciente. Levanta. Abre a janela e recebe o ar fresco da manhã cinzenta de dezembro. Lembra de Brecht: “De todas as coisas,/a mais segura é a dúvida”. Toda matéria é número. Nascimento. Morte. Ela agora sonha com o fim do mundo estampado nas varandas dos apartamentos vizinhos e nas promoções de lojas e cartões de crédito.

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