A cabeça de porco – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 19/12/2012

A CABEÇA DE PORCO

Era para ser um acontecimento. Alvacir estava preparando a festa havia dias, se reuniriam todos no sábado à noite para experimentar uma iguaria quase inédita naqueles recantos do Morro do Jacu: uma cabeça de porco assada. Mas, afinal, o que há para se comer numa cabeça de porco? Bom, o prato tem lá seus defensores e seria um bom motivo para reunir amigos, cantar as velhas modas de viola, beber cerveja e cachaça e comer alguma coisa além das tradicionais linguicinhas, bistecas e picanhas das festas anteriores.

Um dia antes, conseguiram a cabeça do porco, doada pelo João Rufino. Mas quem passaria uma tarde inteira preparando algo que nenhum deles até então tinha se arriscado a fazer? Irineu, mais conhecido como Irineu 2, assumiu o posto de assador oficial. Levou a cabeça para o seu sítio, sabendo que ela deveria ser assada num forno elétrico, mas quem disse que no sítio de Irineu 2 tem esses luxos? O jeito foi colocar fogo na churrasqueira e assar a cabeça como se fosse um galeto.

Tratou-se, claro, de um desastre anunciado: Irineu 2 não levou a sério as orientações da esposa, dadas por telefone, de que acompanhasse de perto o fogo, resolveu deixar a cabeça de porco assando e foi capinar uma roça de aipim. Para piorar, ele deixou Ricardo cuidando do fogo, porém, quem conhece Ricardo sabe que ele pouco cuida de si mesmo, quanto mais de uma tarefa como essa. O pior é que, horas antes, Hercílio tinha passado pelo sítio de Irineu 2 e deixado por lá uma garrafa de Velho Barreiro. Adivinhem do que Ricardo cuidou realmente. Não deu outra: o fumaceiro foi grande e descobriu-se que a banha do porco é bastante inflamável e que o sonho de Alvacir em ter uma festa cujo prato principal seria uma cabeça de porco assada virou carvão.

À noite, conforme os convidados iam chegando à festa, ouviam de um consternado Irineu 2 a narração do desastre. Alguns não acreditaram muito, disseram que ele tinha comido a iguaria sozinho; outros, no fundo, até agradeceram, pois a visão daqueles olhos, o focinho, os dentes suínos para fora não é o que se pode chamar de apetitoso. Voltaram todos às bistecas, aos torresmos, às linguicinhas, que é para isso que os porcos foram feitos, segundo Sandro e Guilherme e outros esfomeados mais tradicionais. Voltaram também ao repertório de clássicos caipiras repetidos à exaustão: “Moreninha Linda”, “Chico Mineiro” e “Beijinho Doce”.

O novo gaiteiro da turma, o Zé, até trouxe umas modas novas, mas o Tito, o Alvacir, o Ricardo e o Zezinho gostam mesmo é daquelas que eles cantam, ou pensam que cantam, com o “Peito Sadio”, só para lembrar mais uma das modas perpetradas pelo grupo. Vez ou outra, a lembrança da cabeça de porco aflorava, para ser logo esquecida, entre um gole de cachaça e os versos de José Fortuna: “Todos temos nossa canga, mas nós não vemos / Puxando a pesada carga da solidão / Até que o carro da vida um dia para / No lamaçal sem saída do coração”.

No final, a festa do Alvacir foi mesmo um acontecimento.

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