Amanhã será Natal, crônica de Marco Vasques

   AMANHÃ SERÁ NATAL

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias de Dia [24/12/2012]

 

Ela acorda. Amanhã será Natal. Nos mercados todos buscam algo. Bebidas, muita bebida, porque a felicidade necessita de indução. Alguns invadem as ruas das cidades à procura de um presentinho para aquele sobrinho que resolveu aparecer na última hora. Muitas famílias fazem a ceia tradicional. Peru, uva, vinho, espumante, arroz com passas, enfim, uma mesa farta de silêncio e de olhares acusativos. A irmã recrimina o irmão que bebeu o suficiente para ironizar o encontro. A mãe, com as mãos trêmulas, esconde todas as sujeiras no quarto da dispensa. O pai não esconde o amargor de uma vida dedicada a uma família que nunca lhe dirigiu a palavra com ternura. Ali, com ele, tudo era no temor. Na parede, um crucifixo ainda impõe todo o medo que ela obteve na infância. A família, Deus e o pai sempre foram figuras distantes.

Ela nunca foi tocada pelo desejo nestes encontros de fim de ano. Os carros buzinam. As multidões se desencontram nas praias. Explosão, muita luz. Em poucos minutos o silêncio se recompõe. O amargor da comida e da bebida se impõe. Estava mesmo decidida a não passar por isso este ano. Nas paredes de seu quarto as imagens vão se repetindo. As lembranças fazem com que perceba que todo Natal comiam as mesmas coisas, falavam dos mesmos assuntos, praticavam os mesmos rituais e voltavam para casa com as mesmas angústias, decepções e vazios. Nunca entravam na zona de conflito. Os assuntos mais polêmicos eram engolidos junto à ceia.

Promete que vai beber mais que o normal. Fazer alguma coisa diferente como, por exemplo, faltar à ceia familiar e presentear o corpo em banquete a um homem desconhecido. No silêncio de seu quarto, algumas lágrimas surgem. As fronhas são suas únicas testemunhas. Engole cada desespero. Não queria mais o encontro com o medo. Ela tem medo de comer, da saliva alheia, de fazer sexo, de beber e de andar na praia. Não toma banho de chuva com medo da pneumonia. Ela tem medo do medo. Em que parte estará sua redenção? Em que linhas das mãos um cantinho de felicidade?

A morte é outro fantasma que a persegue. Olha para o lado e vê todas as gerações que se esvaíram fotografadas nas paredes do quarto. Tenta algum consolo nas gerações futuras. Mais que medo da morte, tem um medo incrível da vida. Ela tenta levantar. Busca forças. Precisa dizer um não imenso neste dia mundial do sim. Por algumas horas todos se abraçam, bebem, falam de banalidades e quase alcançam, pela espontaneidade forjada, alguma leveza. Sim. Amanhã será Natal e ela ficará em seu quarto, nua, olhando o mundo girar sua inútil fantasia de esperança.

 

 

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