E o mundo não acabou… – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A notícia em 26/12/2012

E O MUNDO NÃO ACABOU…

Eis que tivemos mais um fim de mundo frustrado. Tanta expectativa e nada. Tudo transcorreu normalmente nessa migalha cósmica chamada terra. Obviamente motivos para o fim do mundo não faltam: continuamos atravessados pela barbárie, pela centralização do poder, por um modelo econômico e político injusto, e cada vez mais injusto porque vestido com a máscara de que é o único que funciona. Continuamos relegando os grotões do mundo à miséria e dando espaço a pensamentos sumamente fascistas, claro, quase todos disfarçados de pensamento estético. Alguns exemplos disso, apenas para ficar nas ninharias do dia a dia, são o cabelo liso, a magreza, a brancura da pele, o machismo, a insistência em fazer do Estado laico um estado religioso, a insistência em atacar direitos alheios historicamente negados, o conservadorismo assustador de uma boa parcela da juventude, instituições religiosas se preocupando com inutilidades, sobretudo as sexuais, quando deveriam elevar seus discursos às mesmas coisas que o Cristo elevou a dele: a paz, a igualdade, o combate diário à injustiça social e às corrupções dos poderosos. Continuamos violentos, mesquinhos, invejosos, consumistas, corruptos e atribuindo nossos erros à malfadada “natureza humana”, receptáculo de tudo, desculpa para tudo. Enclausuramos nossos defeitos no “é assim mesmo” e continuamos destruindo a Terra e o que há nela.

Por outro lado, ainda há motivos para que o mundo não acabe. Ainda somos delicados, prenhes de solidariedade. Construímos belezas amplas diariamente. Inventamos máquinas que melhoraram a produção de alimentos, faltando agora melhorar a distribuição dos alimentos. Diminuímos distâncias, podemos ver mais facilmente um filme do Vietnã, ou ouvirmos uma música senegalesa. A ciência médica evoluiu muito e, apesar dos velhos interesses escusos, nos revela muito de como somos biologicamente, do que temos que fazer para proteger ao máximo esse nosso corpo e mente. Avançamos no conhecimento sobre de onde viemos e também para onde vamos. Apesar dos esforços de muitos, não será tão fácil destruir o meio-ambiente, perpetrar ditaduras, modificar os espaços urbanos conforme a vontade de uma minoria. Há mais voz, há mais movimento na busca de saídas, há mais embate imediato contra os neo fascistas que expus aí no primeiro parágrafo. O mundo não precisa acabar, pois ainda há a possibilidade de um tempo mais harmônico, menos selvagem, menos “natureza humana”, mais centrado em princípios éticos efetivos e não de aparência. Ainda há tempo de por em prática as palavras utópicas de Jesus Cristo, Gandhi, Tereza de Calcultá, Martin Luther King, Nelson Mandela, Francisco de Assis, Chaplin, apenas para ficar em alguns ícones mais conhecidos. O mundo não precisa acabar pois uma experiência grandiosa como a humanidade talvez não mereça o fracasso, desde que a parcela sonhadora dessa mesma humanidade tome para si a decisão de deixar de sonhar e coloque em prática seus sonhos.

Rubens da Cunha

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