Encontro de nadezas – crônica da semana, por Marco Vasques

ENCONTRO DE NADEZAS

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [07/01/2013]

 Uma lágrima cai do seu rosto. Uma face desconhecida. Conhecida? O corpo, canto preso à cadeira de rodas. Ele, jovem ainda, treme pernas e braços. O olhar fixo numa imagem indecifrável. Ele chora, só, no parque em que crianças sãs pulam suas alegrias inocentes. Ele chora e nada podemos fazer. Aquele choro voa em nossas entranhas. Difícil é chorar na dor do outro. Se debate feito pássaro na frente de um espelho. Não. Não tem vergonha de suas pernas e braços descarnados. Parece mesmo nutrir alguma alegria sádica. Exibe a lágrima como um ato de redenção. Ao perceber que o homem, sentado num ponto de ônibus do outro lado da rua, adentrou sua face, ele abre um leve sorriso. O corpo responde como se estivesse no ápice do gozo. Não viu no olhar do homem um gesto de piedade ou dor. Percebeu, na tristeza do outro olhar, que havia entre ambos algo reconhecível.

Uma comunhão no prolongamento do silêncio. Agita-se mais e mais na cadeira de rodas. Procura o movimento inexistente. Tenta um sinal. Sabe-se, pela infinita pronúncia do silêncio, que a comunicação se estabeleceu. O ônibus passa. O senhor não consegue levantar; não pode sair. Observa que não há ninguém para empurrar a cadeira de rodas. Quem deixaria, em plena tarde de sol, um rapaz numa cadeira de rodas sozinho no imenso parque?

Ao seu lado um balanço, abandonado por outra criança, balança o vazio e chama a atenção de ambos. Mais uma comunhão. O que impediria aquele homem de levantar, tirar o rapaz de seu cárcere eterno e colocá-lo no balanço? Eles se comunicam pela extensão do silêncio. Branco e escuro. Tudo dito sem palavras assim. São cores aquelas duas existências. Uma brancura. Um negrume. Silêncios que constroem imagens. O homem lembra que é início de ano e que havia prometido mudar a rota da vida, fazer coisas diferentes e se dedicar a alguma atividade que desse a mínima sensação de utilidade. Egoísta, como todo homem, queria lavar as mãos da consciência com um gesto filantropo. Hipócrita, mas filantropo.

No entanto, pela primeira vez aquele jovem despertou um sentimento nunca experimentado. Algo de primitivo, autêntico e íntimo aconteceu naquele encontro de olhares e silêncios. Tenta levantar. Algo o impede. Atravessar a rua e chegar à cadeira de rodas parece ser impossível. Imóveis e separados por distância nenhuma. O mundo inteiro apagado nas duas faces. A carnação da dor e duas felicidades nuas. O jovem olha para o balanço vazio e móvel. O corpo excitado. Sorriso áspero. Do outro lado da rua seu pai entende, pela primeira vez, que a vida é esse encontro de nadezas.

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