Abril, 1994 – Crônica de Rubens da Cunha

ABRIL, 1994

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 02/01/2013

Descobre ao acaso algumas “Playboys” no quarto onde se hospeda na praia. Acha aquilo curioso, tem dezoito anos, há pelo menos dez tem contato com a nudez na internet. Assim, fotos de mulheres nuas em uma revista velha não é exatamente o seu modelo ideal de fixação erótica. Olha as revistas mais com curiosidade do que com erotismo. Pega uma das revistas, é a edição de abril de 1994. O mês em que ele nasceu. Que mulher estaria se mostrando nua quando ele também se mostrava nu pela primeira vez? Fabiana Oliveira, sob o nome da moça uma chamada: “a mergulhadora resolveu mostrar muito mais do que o lindo rosto”. Ele abre a revista e vai ver o que a loira angelical da capa está mostrando: uma beleza natural, quase pudica, poses coreografadas para que a modelo pareça elegante e se afaste da vulgaridade. Talvez por isso alguém desenhou com caneta esferográfica um biquíni vermelho sobre o sexo da mergulhadora. Ele ri, lembra-se que nos santinhos dos políticos ele fazia chifres, bigodes, barbas, mas esse desenhista teve um pouco mais de sorte do que ele, enfim, cada um com seu destino. Por onde será que anda Fabiana Oliveira? Poderia buscar alguma coisa na internet, mas prefere ficar pesquisando a revista que nasceu junto com ele. Outras duas loiras aparecem nuas na revista: uma longilínea modelo americana e a brasileira Mari Alexandre, posando de intelectual dentro de uma biblioteca. Percebe que as duas estão bem mais entregues ao trabalho do que a modelo da capa. Sua preferência vai para Mari Alexandre, cujos seios pré-silicone demonstram uma pujança considerável. Com outras pessoas circulando pela casa, resolve deixar as mulheres nuas para um horário mais “impróprio” e parte para aquilo que, dizem ironicamente, ser os reais motivos pelo quais os homens compram a “Playboy”: as entrevistas e as reportagens. A entrevista dessa edição é com Nelson Motta que reclama de ter sido expulso do Brasil pela música sertaneja. Até onde ele sabe, os dois andam por aí: Nelson Motta lançando seus livros e posando de jornalista alternativo e a música sertaneja embalando a juventude universitária. Uma das reportagens fala sobre as cidades brasileiras onde mais se transa. Em 1994, o lugar em que mais se transava no Brasil era João Pessoa. Será que os paraibanos ainda mantêm o posto? A reportagem também destaca que há dezoito anos ninguém transava mais de quatro vezes por semana em Rio Branco. Vai ver é por isso que fazem tanta piada com o fato do Acre não existir. Outras das reportagens é sobre um tal de Antonio Luciano Pereira Filho, um milionário mineiro que ganhou perfil na “Playboy” porque deflorou 2000 virgens, usando tudo o que um macho rico poderia usar: sedução, suborno, compra, estupro. Há também relatos sobre a vida sexual dos jogadores de futebol nos anos 60 e 70, sobre como pilotar moto na neve e até um tira-dúvidas sobre pênis torto. Nada tão interessante quanto dar mais uma olhada inspiradora em Mari Alexandre.

Rubens da Cunha

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