Crônica da Semana, por Marco Vasques

AOS VENCEDORES, AS BATATAS

POR Marco Vasques

Publicada no jornal Notícias do Dia [14/01/2013]

Percorre as ruas da cidade com os olhos voltados para as lojas de móveis usados. Não interessa a ele nenhum ato decorativo. Nenhum ato estético o preocupa. Pouco importa o estilo barroco ou neoclássico de cada matéria. Entre mesas, cadeiras, estantes, bicicletas, armários, bidês, bancos, guarda-roupas, máquinas para todas as funções humanas, só lhe saltam aos olhos os troféus envelhecidos que figuram sobre uma prateleira solitária no alto da parede. Costuma passar os dias vagando pelas ruas João Pinto e Victor Meirelles à procura de novos troféus abandonados. Os objetos, sem seus donos, denotam a mais absoluta imagem da derrota.

Há quem possa julgá-lo um mero perdedor com sonhos de vitórias alheias, pois um colecionador de canecos usados, num primeiro momento, pode despertar a curiosidade e ser motivo de pesquisas e análises de sociólogos, psicólogos e toda a sorte de intelectuais de Bundópolis. A cidade não perdoa os colecionadores de inutilidades. Jamais entenderia um ato que não obedeça à binária combinação de causa e efeito. A cada nova taça adquirida, uma história a ser inventada. Enxadristas, jogadores de futebol, dominó, basquete, vôlei, baralho e desportistas dos mais distintos seguimentos dedicaram a vida à conquista das insígnias que abundam em seu mísero quarto de pensão.

É preciso dizer que Bernardino tem uma espécie de compulsão por coleções inúteis. Na verdade, ele sempre pensou que para suportar uma vida inútil era necessário combatê-la buscando a redenção nas coisas imprestáveis. Foi pensando assim que passou parte de seus setenta anos colecionando as coisas mais inusitadas. Fundou, em sua imaginação, um imenso museu com caixas de fósforo vazias, pregos enferrujados, xícaras quebradas, xepas de cigarros com marcas de batom, fósforos usados, gravetos de aroeira, fios de cabelos femininos, grampos de roupa, bilhetes anônimos, capacetes, molas de trem, ossos de pássaros, dentes caninos, cartas de baralho, rolhas de vinho, pedras das mais variadas espécies, calota de carro, roupas rasgadas, pedais de bicicletas, tampas de panela, parafusos e toda a sorte de quinquilharias abandonadas pelo homem.

Bernardino, hoje dedicado a beijar a ferrugem de sonhos alheios, leu em um manual de filosofia existencialista que “um homem é aquilo que quer ser”. Depois disso abandonou religião, moral, amor, trabalho, família e toda ficção social-financeira para se irmanar, definitivamente, a bandidos, prostitutas e as coisas imprestáveis de um mundo imprestável. Dizem os jornais que Bernardino se humanizou nas sujidades.

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