As Bicicletas Fantasmas – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 16/01/2013

BICICLETAS FANTASMAS

Elas estão nas cidades. Estão invadindo praças, esquinas, algumas suspendem-se nos postes, brancas e tristes. Elas são fantasmas, são lembranças de que ali, ou por ali, morreu alguém que insistia em fazer algo contra a normalidade: ser um ciclista num tempo em que ser ciclista é um acinte à cultura do carro, à cultura das grandes vias, dos viadutos, daquilo que os homens do poder entendem por “mobilidade urbana”. Elas são bicicletas fantasmas espalhadas dentro dessa mesma mobilidade. Elas estão espelhando anos de incompetência política, de escolhas erradas, de prioridades que não resolvem. Algumas delas ainda carregam o torto do acidente e, por baixo de sua pele branca, é bem provável que ainda haja respingos do sangue do morto. Cada uma delas lembra que a “Cidade das Bicicletas” é apenas uma lembrança em ruínas, um título impresso nos velhos catálogos de turismo. O que há agora são os pais com medo de que seus filhos saiam à rua com a sua bicicleta; são os operários que já não se arriscam nas saídas das fábricas; são as pessoas achando que bicicleta é algo arriscado, perigoso, pouco possível dentro da cidade contaminada pelos carros. Porém, as bicicletas fantasmas vieram para denunciar o descaso, as ciclovias que levam a lugar nenhum, as obras de maquiagem feitas apenas para acalmar os que insistem na utopia de uma cidade menos quatro rodas.

Cada uma delas se pergunta: quantos postes terão que ser preenchidos com as bicicletas fantasmas até que se mude a mentalidade? E quando não houver mais lugar nas praças para que as bicicletas fantasmas habitem, o que será feito? Será que a cada ciclista morto na cidade, além da bicicleta fantasma se deverá cravar uma cruz no lugar do acidente, assim como fazem nas rodovias? Quantas cruzes serão necessárias? Quantos altares a cidade terá que suportar até que se inicie a mudança?

A vida é tão rara, diz a canção. Cada ciclista morto, única e exclusivamente porque fizemos as opções erradas em relação ao trânsito, retira um pouco a raridade da vida, expõe a mesquinharia, o apego à facilidade, a falta de senso. Mas as bicicletas fantasmas estão nas cidades. Por enquanto, são poucas ainda, mas gritam. Logo, outras gritarão, e o grito será tão alto que será impossível deixar de ouvi-lo.

Rubens da Cunha

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