Mário Fugitivo – Crônica de Marco Vasques

MÁRIO FUGITIVO

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [21/01/2013]

Sempre carregou na memória a frase que encerra o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria”. Usava a frase a cada relacionamento que iniciava. Já se vê que nosso personagem é afeito à vida moderna. Vai da frase sofisticada, retirada das leituras colegiais, ao mais reles clichê televisivo. Dia desses, ao ser interpelado por uma ex-namorada se ainda continuava com a Luiza, foi logo dizendo que a Luizinha era coisa do passado e que figura repetida não completa albinho.

Assim mesmo leitores, bem à moda do nosso tempo, ou seja, tudo é descartável e fugaz. E quando Luiza indagou se com Amária o relacionamento tinha ultrapassado os três meses, foi logo dizendo que a fila anda. Que o mundo está muito veloz. Que faz pouco tempo era Natal e já estamos terminando janeiro. Que quem dorme no ponto perde o ônibus. Que perdão não se pede ao prazer e coisa e tal. Despediu-se de Luiza, sem afeto algum, e torceu para não dar de cara com mais uma de suas conquistas.

Mais instável que trepada de coelho, Mário Fugitivo seguiu pensando se a frase do romance era realmente do personagem ou do próprio Machado de Assis. Parece ter lido em algum lugar que o autor da obra citada não teria tido filhos também; no entanto, como é de sua característica, resolveu não afirmar nem a si mesmo, já que a certeza é coisa de homens de ações contínuas e ideias fixas. Fugitivo, o habitante mais despreocupado de Bundópolis, jamais se deteria em tais elucubrações.

Como coelho, de precocidade em precocidade, Fugitivo não cria raízes e detesta tudo que é gênero de arte. Dia desses disse à Diana, sua nova conquista, que não gostava de arte e nem de artista porque vê muita empáfia nesse mundo, porque não entende as obras que vê, porque não acha necessário nada disso para a sua vida e, sobretudo, porque hoje qualquer coisa é arte. E se tudo é arte, o melhor é se despreocupar dos conceitos e olhar o mundo, as pessoas, a vida, a morte e cada ato como um processo artístico. Foi até aí e não deu mais conta do raciocínio.

Ele até já foi afeito à literatura, mas quando descobriu que tinha talento incomum para o namoro, tornou o ato da conquista sua única arte. E para ele a coisa era simples, sem complicação: não importa a idade, o tamanho, o peso, a cor dos olhos, o tamanho dos cabelos ou a classe social. O que não admite é ver mulher alguma desabrigada de abraços e carinhos. Dizem até que a frase “copo de água e beijo na boca não se nega a ninguém”, atribuída a um alto intelectual de Bundópolis, é de sua autoria.

 

 

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