A Famigerada Fama, crônica de Marco Vasques

A FAMIGERADA FAMA

Por Marco Vasques

Publicada no jornal Notícias do Dia [28/01/2013]

Andy Warhol já previu que chegaria o dia em que todos, mas todos, sem exceção, teriam seus quinze minutos de fama. E ele tinha toda razão. Em Bundópolis, a fama é procurada das mais diversas maneiras. Dia destes, na saída de uma peça teatral, uma menina falava em altíssimo som que já tinha deitado com três atores de televisão. Ela, como diz Dona Lindomar, por certo obteve alguns minutos de cama. Comer a gurizada da novela das oito não bastou; a infante teve que contar para todo mundo. Contou e imaginou os seus minutos de fama.

Faz um tempo Dona Lindomar foi visitar a irmã que, por muita coincidência, casou com seu ex-namorado, o Marlindo. É preciso dizer que Dona Lindomar se afastou dele temendo o pior à sua prole, pois os leitores já podem imaginar os nomes das criaturas. Papo vai, papo vem, e a nossa velhinha se deparou com uma página de jornal emoldurada na parede. Aproximou-se. Percebeu o pensado. Era a sua irmã e o Marlindo sorrindo nas belas águas do Campeche. Simples: a irmã mandou a foto e uma notinha para o jornal. Os dentes mostrando uma felicidade inexistente e o colunista, que vive do desejo alheio da notoriedade, imortalizou o casal.

Tudo, ao que parece, começa na infância. E se inicia com uma pergunta cretina. O que é que você vai ser quando crescer? A indagação, aparentemente inocente, carrega toda uma carga de utilidade e de funcionalidade da vida. E a criança, uma pequena fábrica de fantasias inábil para a vida prática, começa a pensar que nada é pela correlação simples e óbvia: se todos os adultos perguntam o que ela vai ser, significa que ela terá que ser algo, alguém ou alguma coisa. E o que significa ser alguma coisa? E o que significa ser alguém ou algo? Então a pobre criatura começa a perceber, por intuição, que terá que fazer uma escolha prática para “ser alguma coisa”, porque ser apenas a coisa que já é parece pouco.

Dona Lindomar, irritada com a famigerada fama e com a insistência em se atribuir utilidade para tudo, resolveu indagar os intelectuais de Bundópolis – que se opõe radicalmente aos métodos e ideias da velhinha -, e obteve a seguinte resposta: “a pergunta em questão, dirigida a crianças, pode ser interessante pelo fato de gerar a aspiralidade crescente do desejo duplo na análise do ser associado ao vazio. O questionamento pode, ainda, refletir um impulso narcísico de maneira indelével”. Resultando, afirmam os doutos, “num possível retorno ao ser originário e ao abandono de ser pleno de tudo”. Dona Lindomar, que não é boba, voltou a ler catálogos de artes visuais onde tudo e nada se equivalem.

 

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