Das quedas de bicicletas e outras quedas – Rubens da Cunha

Crônica publicada em 30/01 no Jornal A Notícia

Julia pede para que eu não escreva mais seu nome no jornal. Ela acha que não é legal aparecer, mas eu sou muito desobediente e continuo, de vez em quando, cronicando para meus leitores o que a minha única sobrinha faz no mundo. Já falei de como ela alimentava uma cabra com acerolas, do seu cão feio que morreu atropelado, agora vou relatar como Julia caiu de bicicleta.

Ela estava andando numa bicicleta maior, bem feliz, se sentindo, pois a bicicleta foi presente de aniversário. Ia com a vó Salete numa vizinha. Mas as estradas são traiçoeiras, elas parecem que querem derrubar gente que se acha. De repente, Julia percebeu que estava acima da velocidade permitida e resolveu ser ninja: pular com a bicicleta em andamento. Não deu outra: beijou o chão. Quem nunca? Levantou-se orgulhosa e disse que o joelho e a canela toda ralada nem estava doendo. Quer dizer, tentou se convencer de que aquele ralões todos não doíam, falou também que todo mundo cai de bicicleta, não tem nada demais, não é assim tão vergonhoso, coisa e tal, mas, apesar de pequena, Júlia já sabe que o que dói mesmo é o orgulho ferido.

Tombos, tropeções, quedas são pequenas birras que o destino nos impõe, é aquela coisa de adestrar, de domar o sujeito. Todo mundo que passa por isso, a primeira coisa que faz é disfarçar, olhar para os lados, tentar voltar à normalidade o mais rápido possível, por mais que os corpo diga que devemos é ficar prostrados na vergonha, ou no caso de queda completa, iniciar algum processo de cavar um buraco para sumir rapidinho, ou imaginar-se invisível.

Cair faz parte do aprendizado e isso não é apenas uma metáfora. Cair mesmo, se estatelar no chão faz parte da dita natureza humana, sobretudo quando estamos aprendendo a andar. Outro momento importante é o mítico andar de bicicleta, ainda mais quando se retiram aquelas rodinhas laterais. Depois que se aprende há uma libertação, assim, cada queda é um acinte. Quando acontecer, o jeito é seguir literalmente o que o refrão de uma das grandes canções brasileiras diz: “Reconhece a queda e não desanima, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Foi o que Júlia fez.

Rubens da Cunha

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