Sequíssima – Crônica de Marco Vasques

SEQUÍSSIMA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [04/02/2013]

Após a divulgação da Lei Sequíssima, Dona Lindomar tem tomado para si a tarefa de vigiar os sobrinhos, netos e bisnetos. Ela mesma batizou o “aperto” feito na Lei Seca com o superlativo sequíssimo. A recomendação dela é simples e beneficia todos os bares do Córrego Grande. Ela propôs aos parentes que fossem as suas casas, deixassem os carros e escolhessem qualquer bar do bairro em que moram para tomar aquela cervejinha tranquilamente. Depois é só voltar, tomar um café, comer, dormir e pegar o volante são e sem bafo de álcool. Sim, sem bafo. Porque daqui a pouco um bombom de licor poderá colocar qualquer cidadão numa situação terrível: multa, apreensão do carro, cadeia, fiança. É claro que Dona Lindomar condena peremptoriamente os malucos que bebem feito porcos e saem por aí colocando em risco não só a sua vida, mas a vida dos outros.

No entanto, não sejamos hipócritas. Quem nunca bebeu aquele vinho, aquela cerveja ou caipirinha e depois foi, lentamente, para casa. O que Dona Lindomar contesta na Lei Sequíssima não é propriamente a lei, mas a vulnerabilidade em que ela coloca o condutor. Vejamos, explica a velhinha à sua prole. Sem ar professoral, ela argumenta que Aristóteles, no livro A Ética a Nicômaco, já trata do assunto com alguma prudência. Ao criar o conceito de mediania, o filósofo grego esclarece que cada pessoa possui um meio diferenciado. Vamos à prática, diz, e aponta para o neto Bernardino e depois para sobrinho Roneslildo.

Ambos são homens, fortes e bonitos; no entanto, se Bernardino tomar uma taça de vinho ficará completamente embriagado. Já o Roneslildo começa a tontear somente após uma garrafa. Isto é, uma taça de vinho pode matar mais que uma garrafa, argumenta a pensadora. E nisso cria argumento para os que defendem o “aperto” da dita lei, a Sequíssima. Não nos precipitemos, segue ela. O problema não é exatamente este.

A questão é que uma lei, por suposição, tem que ser, no mínimo, isonômica e justa. Embora a Lei Seca, em seu princípio, pareça ter essas características, agora, com a alteração, está bastante vulnerável, pois coloca nas mãos da polícia, via de regra intolerante e despreparada, a decisão de prender e punir, no mesmo grau de severidade bêbados incapazes de dirigir e o cidadão que tomou uma taça de vinho no almoço e foi levar a mulher ao trabalho. Em Bundópolis, as leis são criadas sem meios fiscalizadores e o próprio governante vive as descumprindo. Para evitar a desobediência generalizada da família, colocou, no maior quarto da casa, uma placa com a inscrição: repouso dos bêbados.

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