As Nuvens – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A notícia em 06/02/2013

É manhã. O dia está quente, mesmo sem sol. Nuvens compõem a segunda-feira. Talvez deságuem, talvez molhem os passantes, ou fiquem suspensas, andando de um lado para o outro, talvez sumam deixando o céu azular-se. Lá fora, o barulho constante das rodovias, os engarrafamentos nas vias de acesso à cidade, o centro entupido de gente, a vida nesse contínuo fluxo de pequenos medos e alegrias, breves desesperos, grandes esperanças. Sob o céu, as nuvens parecem refletir o andamento da Terra, andam de um lado para o outro, engarrafam-se também as nuvens nas vias do céu. Aqui embaixo, poucos olham para elas, se antes olhavam para descobrirem como seria o tempo, hoje apenas acompanham as pessoas do tempo na televisão. Mas será que estas olham realmente as nuvens ou apenas telas de computadores, imagens de satélite? Não se sabe. O que se sabe é que se tem produzido muita fumaça aqui embaixo, e fumaça é uma quase nuvem que nós produzimos. Muita coisa pegando fogo, incendiando o nosso “faz como dá”, “depois a gente vê”, o nosso “deixa quieto, não vai dar nada”. Estariam as nuvens rindo de nós? Há milhares de anos elas nos olham, percebem o que somos, de onde viemos e para onde estamos nos encaminhando. Claro, as nuvens riem de nós, do projeto em constante tentativa que somos, do projeto sempre amalgamado no sucesso e no fracasso a que estamos submetidos no dia a dia. Talvez as nuvens nos odeiem porque as tornamos tapetes para os anjos, ou porque brincamos de ver nelas coisas que elas não são, ou ainda quando a chamamos de tempo feio um tempo nublado, ou dizemos sempre que um céu sem nuvens é um céu limpo. Sempre que falamos isso, as nuvens só nos olham e pensam: soubessem vocês o quanto são distantes da beleza do nublado, o quanto são transparentes e ao mesmo tempo sujos não faziam tais associações, ficariam quietos aguardando nossas águas para se lavarem, agradeceriam nossa presença. Mas os homens pouco pensam nas nuvens sob esse viés. Elas é que são mais altruístas porque mais eternas. De qualquer forma, aqui embaixo, a vida segue, entre um escândalo e outro, entre uma alegria e outra, estamos todos sob as nuvens, compondo mais uma segunda-feira.

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