Binária e Bipolar – Crônica de Marco Vasques

BINÁRIA E BIPOLAR*

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [11-02-2013]

Dona Lindomar – que já havia prometido não participar de congressos, reuniões, assembleias, conluios e toda sorte de ajuntamento – resolveu, a pedido da sobrinha Gardenilda, acompanhar um encontro que tratava dos distúrbios típicos de personalidades que se encontram no meio cultural. São, supostamente, aos próprios óculos, sábios líderes de uma plebe burra e sedenta de seus originalíssimos discursos. Bundópolis, que recentemente foi vítima da revolta das tatuíras cientistas, foi, mais uma vez, o palco escolhido para o encontro tão desejado.

Tudo começa com o tradicional café social pela manhã. As mesas são divididas por afinidades. O estudo de caso é muito curioso, porque os próprios palestrantes são os objetos de pesquisa, ou seja, todo mundo só fala de si mesmo. Claro que isso mantém a tradição egoica da cidade. Sendo assim, após o café, as sucessivas falas se acumulam e Dona Lindomar percebe outra peculiaridade: quase toda a plateia consiste apenas na douta figura do excelso falante.

Todos falam com propriedade de suas próprias enfermidades e desesperos e, para nossa curiosidade, acabam sendo os únicos críticos de si mesmos. Dona Lindomar já estava desistindo do evento, já que o tempo se arrastava tarde adentro e cada fala continha sempre a mesma coisa chata, renitente e euística. No entanto, lá pelas tantas, aparece uma senhora bem vestida (pelo menos ela acha que está sempre impecavelmente vestida, mas para uns e outros estilistas não passa de uma garça enfeitada com plumagem de pavão). Plumagem, diga-se de passagem, comprada no Camelódromo de Bundópolis, onde impera a falsificação e a sonegação de impostos. É Bundópolis e o esplendor!

A mulher, ao que parece, nem nome original possui, pois se negou a apresentar a credencial exigida para todos. O fato é que quando ela começou a apresentar o seu estudo de caso, Dona Lindomar ficou muito, mas muito impressionada. Tratava-se de um distúrbio incomum. A chamada “persona binária e bipolar”. Só o título já deu um nó na cabeça da velhinha, já que um binário bipolar é um perigo, porque o binarismo se acentua em cada estação em que a dita se encontra.

Ou seja, se ela é amorosa, é binariamente amorosa. Se raivosa, é binariamente raivosa. Em poucos segundos tudo muda. Dona Lindomar ainda verificou na fala da mulher misteriosa uma forte propensão ao utilitarismo. Não se trata da corrente ética de Stuart Mill, mas do utilitarismo raso, binário e bipolar exercido nos asseclas que ela alicia ao custo do erário público. “Os fins e os meios sem princípios”, termina tripolarmente.

 

*Esta é uma crônica de ficção, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência ou puro acaso.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: