Breve Ode ao Cinza – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 13/02/2013

 

Breve ode ao cinza

Quarta-feira de Cinzas. 50 tons de cinza. O dia cinza. A vida cinza. O que é essa cor? A síntese entre o branco e o preto? Não, é muito mais do que uma redução entre extremos. É estranho vê-la associada à melancolia, à tristeza, aos dias chuvosos em que as crianças têm que ficar dentro de casa, e, ao mesmo tempo, espalhada nos carros, nas pratarias das casas elegantes, nas cidades erguidas em concreto. E difícil desgostar do cinza quando se é discreto, quando não se quer aparecer, quando a camuflagem é a máscara da personalidade. O cinza em seus tons e disfarces nos mantém invisíveis. O cinza é o resto do fogo, resto das quenturas amarelas e vibrantes, está ali para dizer que ali existiu outra cor, mas que agora apenas subsiste em cinza. O cinza como a morte, o final, a poeira daninha dos dias que se foram. O cinza e seu sinônimo poético: gris, tão mal usado em poemas ruins. O gris-azulado que se escamoteia como palavra difícil. O cinza sempre é fácil, vulgar, direto sua verve de cor menor. Dizem também que se misturarem os vaidosos vermelho, verde e azul, eles se enfrentam e morrem. Todos se transformam em cinza, todos são convertidos à neutralidade sóbria do centro, do meio, morno, do em cima do muro, daquilo que seria vomitado pelo Filho do Homem. Mas o cinza não é o vômito, o cinza é o sedimento, a base, o escandir-se até a quase transparência. Os sábios da gramática dizem que o cinza não pode ser plural quando ele é adjetivo. Assim o correto gramaticalmente seria “os dias cinza”, “os carros cinza”, “as roupas cinza”. Por quê? Qual o problema de se pluralizar? Por que o cinza não pode ser mais, não pode acrescentar-se em múltiplos, tem que permanecer sendo ele mesmo, sozinho, singular, síntese inequívoca da tristeza e da sobriedade? Os azuis, os amarelos, os vermelhos pululam em plurais intensos, e o pobre cinza permanece sozinho, acuado, nos cantos escuros e chuvosos. Talvez por isso o cinza seja a cor da evasão, da fuga, do distanciamento. Incapaz de ser plural, ele adjetiva-se na solidão, mantém-se “teso na promessa” de ser singular, de ser muralha, de ser ruína. Aquilo que sobrevive, que permanece, que se estabelece no quadro dos tempos.

 

Rubens da Cunha

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