Crônica da Semana, por Marco Vasques

                               A VERDADE, UM MÉTODO INUMANO

POR Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [18-02-2013]

Não há nada mais perigoso à humanidade que a proposição de uma verdade como método de filiação, ou seja, alguém ou alguma sigla que pensa ter em si a verdade e tenta filiar e arrebanhar seguidores. Pessoas ou entidades com estas características são tão nocivas ao mundo quanto uma bomba nuclear. Porque se a verdade acionada atingir todos os homens, por certo, tornamo-nos todos inumanos, ainda que vivos. Do mesmo modo, uma bomba nuclear de grande dimensão pode exterminar o planeta. Ambos são destruidores. Um destrói a vida porque iguala todos os homens. O outro método acaba com a vida biológica. A peça teatral O Rinoceronte, de Ionesco, é exemplo emblemático da morte pelo arrebanhamento e da necessidade de resistência.

Seja político, artista, religioso ou intelectual, não importa.  A imposição da verdade é um método perigosíssimo. E a história está aí com milhares de exemplos. Hannah Arendt discute o problema da verdade na filosofia e na vida. De Tales, o primeiro filósofo a buscar uma unidade para o mundo, ao século XX, a verdade passou por diferentes níveis de exposição. Os gregos pensavam na verdade como pretexto para a conversa, o pensamento e a troca. Os romanos a jogaram para o plano religioso. A ciência para o plano lógico, físico e palpável, enfim, entre a doxa e a aletheia a vida humana segue.

Kafka disse “É difícil dizer a verdade pois, embora exista apenas uma verdade, ela está viva e tem, portanto, uma face viva e mutável”. Lessing, objeto de estudo de Hannah Arendt, disse “Que cada um diga o que acha que é verdade,/e que a própria verdade seja confiada a Deus!”. Logo ele, um combatente contínuo do cristianismo e de suas verdades estanques.

Hannah Arendt fala da verdade-mutante: “Toda verdade fora dessa área, não importa se para o bem ou para o mal dos homens, é inumana no sentido literal da palavra; mas não porque possa levantar os homens uns contra os outros e separá-los. Muito pelo contrário, é porque teria o efeito de subitamente unir todos os homens numa única opinião, de modo que de muitas opiniões surgiria uma única, como se houvesse a habitar a Terra não homens em sua infinita pluralidade, mas o homem no singular, uma espécie com seus exemplares. Se isso ocorresse, o mundo, que só pode se formar nos espaços intermediários entre os homens em toda a sua diversidade, desapareceria totalmente.” Por isso, como diz Lessing, se faz necessário combater os “que desejam sujeitar todos os modos de pensar dos homens ao jugo do seu próprio.” E com cuidado, para não fazer do discurso da não verdade verdade insolúvel.

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