O fim do mundo – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia, em 20/02/2012

O FIM DO MUNDO

Nossa onda apocalíptica continua firme. O papa renunciou, meteoros deram o ar da graça: um menor fazendo estragos na Rússia e um outro, que faria um estrago considerável, passando bem perto da Terra. Enfim, os paladinos do fim do mundo estão tendo orgasmos múltiplos nos últimos meses, ou melhor, eles sempre tiveram seus prazeres alimentados desde tempos imemoriais: viradas de século, de milênios, catástrofes naturais, profecias enigmáticas, religiões fortemente embasadas na escatologia (no sentido teológico da palavra), tudo se torna certeza de que o mundo vai acabar. O engraçado é que as pessoas acreditam mais no “de repente”, algo imediato, uma praga, uma peste, um acontecimento externo vindo destruir tudo, mas esquecem que o mundo está se degradando a olhos vistos. A degradação de que falo aqui é a ambiental, no último século a Terra se tornou uma casa quase sem manutenção, os interesses econômicos e políticos estão acabando com o mundo de forma contínua: rios poluídos, praias como se fossem bocas abertas recebendo esgoto humano, aterros e asfalto mudando o curso das águas, índices alarmantes de poluição do ar, ilhas de plástico nos oceanos, acidentes com navios petroleiros, acidentes radioativos, falta quase completa de planejamento, a grita contínua dos que xingam os ambientalistas de “ecochatos”, “ecoterroristas”, os homens do poder construindo suas mansões em áreas de preservação permanente, os homens sem poder construindo seus barracos nos morros, nos mangues, todos defecando diretamente nas fontes de água. Aliás, umas das coisas mais democráticas que existe é o esgoto humano. Diria até que o sonho comunista de uma sociedade sem classes se dá pelo esgoto irmanado e despejado sem controle no ambiente.

No final do livro “Apocalipse”, depois de toda a destruição, uma das visões de João diz: “O Anjo mostrou para mim um rio de água viva; era brilhante como cristal”. O engraçado é que nós já tivemos durante muito tempo esses rios (além de mares e florestas) cristalinos, mas estamos destruindo em nome do progresso, do bem-estar, do conforto imediato. Um apocalipse que, talvez, ainda seja reversível, controlável, desde que haja uma mudança na mentalidade. Algo difícil, mas que não é assim um fim do mundo.

Rubens da Cunha

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