Crônica da Semana, por Marco Vasques

DODESKADEN

Por Marco Vasques

Publicada no jornal Notícias do Dia [25/02/2013]

Nos dias de maiores angústias deitava sem escovar os dentes. Nesses dias começou a perceber movimentos sobre sua cama. Na primeira noite não se interessou muito pelos ruídos, porém ficou muito intrigado. Na noite seguinte, quando seu espírito estava um pouco mais tranquilo, escovou cuidadosamente os dentes e, como fazia todos os dias, despiu-se inteiramente para mais uma noite de sono.

Nesta noite o silêncio reinou e ele acordou com uma forte sensação de estranheza. Dirigiu-se à frente do espelho, um enorme espelho que revelava e reforçava seu estado de degradação, uma degradação voluntária, diga-se. Ficou espantado, pois seus cabelos, antes muito curtos, agora eram longos e com um aspecto feminino. Pareciam recém-pintados por uma cabeleireira de beira de estrada. Os lábios e os olhos também ganharam feições mais delicadas. O corpo, antes rígido, alcançara um ar de flacidez e delicadeza que distanciava-se da sua fisionomia natural. Ao abrir o guarda-roupa, outra novidade.

Todas as suas roupas, antes trapos que caíam sobre seu corpo, agora eram as mais variadas peças femininas – um verdadeiro estoque de indumentárias coloridas, porém surradas. Quando olhou para os sapatos e viu todos igualmente transformados em pares femininos, chegou a pensar que, como de costume, havia tomado um porre homérico e habitava o quarto de mais uma de suas conquistas noturnas. Bêbado trepa por teimosia, pois se há prazer não há lembrança, se há lembrança não há prazer. Porém, quando ouviu a voz da dona da pensão gritando que o café iria ser recolhido e se ele não se apressasse ficaria mais uma vez sem comer, se deu conta de que se tratava de seu quarto mesmo. Fechou o guarda-roupa rapidamente e gritou dizendo que não estava com fome.

Para aumentar seu espanto, sua voz também mudara o timbre. Assustado, ele passou o dia inteiro no quarto imaginando ser o próprio Gregor Samsa. Antes de decidir que ficaria trancado o dia inteiro, verificou se existia algo para comer. Nada. Os gritos da dona da pensão o atormentavam a cada chamado. Quanto menos comia, mais o seu ambiente se alterava. Não era mais uma moça, como tudo parecia fazer crer. Já vivia no deserto ou nos monturos com Jó. Viva o sonho fétido da desnutrição. No estágio mais avançando de suas alucinações – seriam devaneios? – resolveu dar cabo naquilo, aplacar devidamente sua fome, pois o delírio de gerações de olhos e estômagos crucificados se multiplicavam nas pequenas paredes imundas. Desejou ter forças para descer à cozinha e mastigar umas migalhas. Era tarde: Dodes’ka-den… Dodes’kaden.

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