Os ingás impossíveis – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 27/02/2013

OS INGÁS IMPOSSÍVEIS

Igual na infância, as frutas boas ainda são aquelas colhidas à beira da estrada. As goiabas brancas e vermelhas são mais fáceis, pois debruçam-se em qualquer lugar. Um pouco mais raras são as carambolas, as jabuticabas e os caquis. Geralmente plantadas dentro dos terrenos privados, elas precisam ser vítimas de “roubo”, assim como o Chico Bento rouba as goiabas do Nho Lau, é preciso arriscar-se um pouco por elas. Em certos lugares, mais ao interior, o risco ainda é possível, mas em espaços urbanos fica apenas no desejo do olhar sobre o muro, na comiseração de ver as frutas maduras caídas no chão, na impossibilidade de experimentar a sua doçura inigualável.

Outra fruta que alegra o verão são as pitangas, vermelhando-se várias por aí, porém elas são muito frágeis, muitas vezes impedem aquele movimento típico de quem colhe frutas: pegar a ponta do galho, puxar para si e conseguir aquela mais especial, perfeitinha lá na ponta. As pitangas desapegam-se muito fácil dos galhos e caem no chão como que esmagadas. O mesmo acontece com as cerejas, (alguns chamam de jambolão) essas roxas e silvestres bastante comuns. São deliciosas, deixam um gosto quase travoso na língua, mas também exigem delicadeza no manuseamento dos galhos. Cada cereja que cai no chão e se perde é uma pequena morte que se dá na esperança de um colhedor de frutas. E a lista segue com bananas, tangerinas, acerolas, porém a mais míticas das frutas é o ingá. Árvore típica da beira dos rios, os melhores ingás são os impossíveis, pois eles ficam naqueles galhos voltados para os rios. Não se pode colhê-los subindo na árvore, não se pode colhê-los da terra, pois que eles cairão na água, não se pode colhê-los da água, pois geralmente o rio é fundo e, ou se nada, ou se colhe o ingá.

Quando eu avistava os ingás impossíveis era sempre uma angústia. Eis que a angústia retornou esses dias. Perto de onde eu moro, um ingazeiro repetindo o destino. Ele não está ao lado de um rio, mas ao lado de um muro, obviamente os melhores ingás são os que estão para o lado do impossível: caem para dentro de um terreno fortemente cercado e guardado por dois cães nada amigáveis. Que façam bom proveito dos meus ingás impossíveis.

Rubens da Cunha

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