Crônica da Semana, por Marco Vasques

AS CALÇADAS DO CÓRREGO

Por Marco Vasques

Publicada no jornal Notícias do Dia [04/03/2013]

O Córrego Grande, que não possui mais córrego algum, mas um grande, enorme e fétido esgoto criado por uma empreiteira que constrói mais um prédio na região, tem causado transtornos para Dona Lindomar. A nossa septuagenária ― que já transita pelas ruas com o olhar daqueles velhinhos a quem nada mais resta senão observar o mundo e calcular as possíveis primaveras vindouras ― não consegue mais caminhar e, muito menos, levar os netinhos para a escola. Ela tem passado por tormentos ao avançar alguns passos no bairro que tanto ama. Tudo por conta das calçadas, ou melhor, da ausência de calçadas.

As calçadas do Córrego são diminutas, quebradas, cheias de buraco, mato e postes. Não bastasse isso, quando existe espaço mais ou menos possível para se caminhar tranquilamente, ele está infestado de carros: do restaurante Dona Benta à Academia World Gym, que não se contentou com atulhar as calçadas de carros, pois chegaram mesmo a fazer demarcações amarelas para os veículos que jogam, todos os dias, os pedestres para a estrada. Dona Lindomar já fez protesto, manifesto, já chamou a política e os órgãos municipais para tentar melhorar o trânsito dos carros sobre as calçadas. Dona Sefinha, outra habitante do bairro, disse: “bate umas fotos e manda para o Cacau Menezes que tudo se resolve! A televisão tem mais poder que Deus, pode confiar!”    

Como o leitor pode imaginar, nada se faz e Dona Lindomar já pensa seriamente em pedir a ajuda do Cacau. Enquanto isso, crianças, jovens, adultos e velhinhos vão se virando como podem. Na frente do Supermercado Imperatriz, por exemplo, todos os dias ela adverte um e outro motorista. Não adianta nada dizer que há um estacionamento gigante no mercado. Não bastasse estarem na ilegalidade, eles ainda maltratam a velhinha com gestos obscenos e xingamentos.

O dramaturgo Domingos de Oliveira disse a ela, num jantar em que estavam Edla van Steen, Sábato Magaldi e Eva Wilma ― “a lei que diz que carro não pode estacionar nas calçadas não funciona, como quase todas as leis brasileiras. Se eu fosse governante inventaria umas leis que funcionam, como por exemplo, uma que diga que pode amassar, riscar e furar pneu de carros que estiverem nas calçadas”. E continuou: “duvido que um lei dessa não resolva o problema”. Aqui no Córrego Grande, como diz ironicamente Bernardino, o neto da nossa personagem, as calçadas são mais curtas que fio dental de tatuíra; os motoristas são mais folgados que o córrego e as autoridades tão ágeis quanto as estátuas da Havan. É isso mesmo Bernardino!

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