Insônia. Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 06/03/2013

INSÔNIA

Sozinho. O calor demasiado abala o sono. Quase três da manhã, a noite está perdida. Na parede, um ar condicionado barulha na tentativa de resfriar o quarto: se o desliga não dorme por causa do calor, se o mantém ligado não dorme por causa do ronco do aparelho. Por mais que tente, nada se arvora saída para essa insônia repentina. No chão, breves formigas passeiam, insones também. Nada pode fazer que não seja esperar os olhos cansarem, que venha o sono reparador como se fosse um sonho, desses que aliviam e levam a esferas inexploradas de calma. Estar acordado agora mais parece um pesadelo, um mal estar que precisa ser evitado. No entanto, quanto mais se tenta dormir mais o estar acordado permanece como imposição, como fato invencível, como atrapalho para todo o dia seguinte. Pensa nos insones crônicos, como devem sofrer, como devem ter a vida abalada pela falta dessa breve dose diária de morte que é o sono. Estar vivo só se torna bom porque apagamos a cada noite. Quando o apagamento não acontece, o corpo e o pensamento se tornam agônicos mecanismos sem controle. Tenta saídas: bebe água, caminha por dentro da casa, toma banho, liga o computador, acessa a internet, liga a televisão, meia dúzia de pastores atribuem ao demônio todos os males humanos. Fosse fácil assim. Nada funciona: tudo cansa demasiado, tudo é só a noite perdida, a sensação que o dia também será perdido, sufocado pelo cansaço acumulado. Ele nada pode fazer, apenas esperar, apenas tentar não macular-se mais. É preciso exercer a paciência, o filtro necessário da calma. São quatro horas e vinte e cinco da manhã. Logo o sol aparece, logo a vida cotidiana da segunda-feira lhe chama, ditadora que é, e ele terá que obedecer, terá que sair vivo e acordado como convém a todo operário da vida. Não pode fazer nada, precisa apenas seguir, manter-se vivo, pensar na próxima noite, acreditar que a insônia não se repetirá, não se manifestará como rotina. São quase cinco. Daqui a uma hora despertará, sairá do estado de latência em que se encontra e exercerá as funções que esperam dele. Talvez explique a alguns a noite que teve, ou melhor, a noite que não teve. Talvez apenas silencie, como quem tivesse dormindo.

Rubens da Cunha

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