Crônica da Semana – por Marco Vasques

O CONVITE

Por Marco Vasques

Publicada no Jornal Notícias do Dia [11/03/2013]

Manoel Osório tem hábitos bastante saudáveis. Costuma se alimentar bem no café da manhã e, quando pode, faz sua caminhada pelo Córrego Grande. No almoço, abusa da boa mão e da imensa vontade de sua protetora mulher, Vitória, que é capaz de colocar qualquer cozinheiro metido na fervura de um banho-maria. Comida à mesa, um bom vinho, boa companhia e o almoço segue um ritual amoroso. Discreto, ele olha para sua mulher com aquela admiração que os tímidos possuem e, não se sabe o motivo, acreditam que podem se esconder na timidez. Pela tarde, uma e outra fruta e um bom café noturno para fechar o dia. Depois de algumas horas de pesquisa, leituras e umas garatujas, ele cai no sono ao lado de sua amante.
Torcedor irredutível do Avaí, muita gente chega a questionar sua amizade com Dona Lindomar que, como todos sabem, é alvinegra fervorosa. E ela, que anda meio cansada de sua casa, dos netos, dos filhos bêbados e das noras sedentas de fofocas, resolveu mudar a rotina no domingo. Pegou com muita dificuldade um ônibus e foi parar na Barra da Lagoa. Nossa velhinha diz gostar da Barra por lhe parecer uma praia de gente que é gente, isto é, lá estão reunidas as gentes simples da cidade.
Ela caminha tranquilamente pela praia, quando o celular toca. Como há muito não recebe uma ligação no domingo, chegou a pensar que não fosse seu telefone. Mas o barulho renitente insistia; não teve solução. Atendeu. Para a sua surpresa, era Osório. Foi logo perguntando se estava tudo bem; se ela tem acompanhado a devastação que está sendo feita no Córrego Grande; se concorda com os novos prédios em Áreas de Preservação Permanente; se sabia que Josefina havia torcido o pé num dos tantos buracos das calçadas do bairro; se estava frequentando o Minimercado Ana Paula em protesto à construção do Imperatriz; se ainda se espantava com a anúncio da pedofilia e da corrupção generalizada no Vaticano; se ela soube que o Bruno confessou o óbvio; se os netinhos dela iam ao velório do Chorão, se, se…
A velhinha mal conseguia respirar e, muito menos, ouvir o barulho molhado das ondas da Barra da Lagoa. Ele não parava, parecia uma metralhadora giratória. Ela tomou coragem e perguntou o que exatamente ele queria. Em tom de suspense, disse que estava pensando em convidá-la para um almoço. Como? Não vai convidar! Convidou. Sabe-se apenas que Osório e Dona Lindomar passaram a tarde bebendo vinho e comendo as delícias da excelente culinária da Vitória. Ao chegar em sua casa, ela foi logo para o quarto que tinha preparado para os filhos e para os netos e que batizou com o nome de recanto dos bêbados. E se…?

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