“A vida segue” – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jorna A Notícia em 13/03/2013

A VIDA SEGUE

Ainda que tarde, a vida segue sendo manhã, sendo a folha incauta sob os pés do bem-te-vi. A vida segue sendo o capim que se dobra, fértil e fácil, ao peso do Coleirinha. A vida segue sendo as goiabas derrubadas pela chuva forte da última sexta-feira, segue sendo os insetos desalojados que sobem as paredes da casa, porque suas casas foram invadidas pelas águas de uma tarde trágica. Ainda que esmoreça a vida segue mourão nas cercas dos pastos da infância. Entrada proibida que ninguém obedece porque a vida segue nos escaninhos, nos entres, nos vãos imperceptíveis. Ainda que triste a vida segue nos abatedouros cruéis do Mato Grosso, nos caminhões que transportam porcos e galinhas vivos pelas rodovias. Ainda que soturna, a vida segue por cima dos abafamentos que os neomedievais religiosos estão impondo às câmaras, às comissões, aos caminhos da liberdade. Ainda que frágil, a vida segue nos latidos dos cães às seis horas da manhã, no barulho brusco dos freios dos ônibus, no burburinho ininterrupto das falas das gentes. Ainda que silêncio, a vida segue estranha, como se fosse um estanho no peito, um colar, uma coleira, maior do que o pescoço pode aguentar. Ainda que surpresa, a vida segue óbvia, multifacetando-se, violenta-calma-plena-forte-insignificante, a vida segue abarcando tudo, feito arca de Noé que carrega não apenas um casal de cada espécie, mas toda espécie de vínculo, de vício, de virtude intrínseca. Ainda que nuvem, a vida segue névoa, terra encoberta de artifícios, de mísseis e fronteiras. Ainda que vasta a vida segue casta, mácula desejada e transferida ao outro. O outro, esse paradoxo, esse desejo inalienável, o outro: pústula e salvação. Ainda que poluída, a vida segue fonte, água primeira no alto da montanha, vértice de força e caos que se sustenta no cerne de tudo. Ainda que morte, a vida segue vivenciando os rastros, as ruínas, as dimensões fortuitas do futuro. Ainda que silêncio, a vida segue sendo palavra falada e escrita no esqueleto das horas. Texto amplo repleto daquelas letras miúdas dos contratos. Texto quase nunca lido. Tudo se estabelece estrada, remo, asa, para a vida que passa, ainda que tarde.

Rubens da Cunha

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