Crônica da Semana – Por Marco Vasques

CASO KASSANDRA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [18/03/2013]

Todos sabemos, pelo menos aqueles que vivem intimamente no meio teatral, que durante o último Festival de Teatro Isnard Azevedo tivemos um caso explícito de censura por conta da nudez cênica. Como se a nudez não estivesse todos os dias ao nosso alcance por tudo o que é meio de massa que insiste em fazer do corpo mais um produto do capitalismo. Todos sabemos, pelo menos aqueles que presenciaram, que o Erro Grupo foi autuado por conta de um nu de 30 segundos, que era um dos possíveis finais do espetáculo Hasard. Todos sabemos que a peça teatral O Tempo de Eduardo Dias – tragédia em 4 tempos, dos escritores Amílcar Neves e Francisco José Pereira, sofreu interdição judicial.

Todos sabemos que uma empresa, vendedora de planos de saúde, exigiu de um músico ― que pleiteava recursos para fazer seu álbum ― que retirasse algumas frases de umas letras. Ele retirou e foi agraciado com o famigerado recurso. Todos sabemos que a mesma empresa, que pretendia apoiar um livro de contos, exigiu que o autor retirasse um conto em que um dos personagens, um adolescente de 15 anos, morre divagando sobre a possibilidade de todas as enfermeiras agirem como prostitutas, doando-se fisicamente a todos os enfermos com um ato de extrema unção. O autor não aceitou e não recebeu o recurso solicitado.

Todos sabemos que a Ditadura Militar perseguiu, matou, censurou artistas e intelectuais. Todos sabemos que entramos em outras ditaduras: a do consumo, a da economia, a da ignorância, a da intolerância, a da opressão, a da omissão… Agora, todos ficamos sabendo que o espetáculo Kassandra, que é um ato poético grandioso, foi censurado por ter como cenário uma das casas de diversões mais famosas da cidade, o Bokarra.

Tudo que tínhamos para falar sobre as qualidades estéticas, poéticas e cênicas de Kassandra já expusemos neste jornal, onde exercemos também a crítica teatral. Talvez seja preciso dizer que o espetáculo Kassandra usa o Bokarra Club apenas como cenário, ou seja, o bordel fecha para recebê-lo; talvez seja preciso dizer que Kassandra é um trabalho construído com o aval financeiro da Fundação Nacional das Artes; talvez seja preciso dizer que a censura tem que ser combatida, jamais aceita; talvez seja preciso dizer que aceitar a ingerência, em uma programação cultural que tem uma curadoria, revela muito do que gestores, políticos, artistas e produtores culturais são capazes de fazer (ou não) para alcançarem seus objetivos; talvez seja preciso rever ― e os franceses estão fazendo isso ― o namoro milenar entre o poder político e a arte; talvez seja necessário saber quem solicitou a ausência de Kassandra na Maratona Cultural e indagar o motivo do “pedido” e, talvez, o mais triste dos talvezes seja pensar porque se aceitou tal “pedido”.

 

 

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2 respostas para “Crônica da Semana – Por Marco Vasques

  • tatiana cobbett

    Então!! uns Sim…outros levaram um tremendo de um Não!
    Mas a melhor conclusão é de que não podemos permitir que um governo eleito, tenha poder, violentando o direito de expressão, e usando para isso o dinheiro do cidadão, ameaçando a legitimidade de uma ação tão importante e significativa para o desenvolvimento da arte e cultura no nosso estado, como entendo ser, a Maratona Cultural. Aproveitemos!!!

  • Obscenidades Catarinenses | SARCASTiCOcomBR

    […] um inglês precário para representar um idioma de sobrevivência. Outra exigência do autor é a de ser encenada em espaços não-convencionais. Em Florianópolis, Kassandra ganhou vida no Bokarra Club, a mais conhecida casa de “diversão […]

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