HIPOCRISIA ASSÉPTICA, por Marco Vasques

HIPOCRISIA ASSÉPTICA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [25/03/2013]

Sentada no ponto de ônibus, ela chora. Sem disfarce, as lágrimas rolam pelo rosto, enquanto o mundo segue sua saga insana, apressada e barulhenta. Ela não; fica imóvel. As pálpebras abaixadas, os cílios umedecidos, as narinas aureoladas por linhas carmim. Percebe-se, com muita observação, um soluço que faz com que o tórax entre em descompasso.

Não há descontrole, desespero e, muito menos, nervosismo. É uma espécie de choro sereno, mas dolorido. Toda a paisagem se converte na imagem de uma menina de 16 anos sentada num ponto de ônibus. É possível que tenha parado ali para partilhar as lágrimas, pois faz umas três horas que a observamos e todos os ônibus, para todos os destinos e lugares, já passaram inúmeras vezes. As pessoas se acumulam, se aproximam com o aumento do vento e da garoa. Próximo a ela ninguém ousa chegar. Há uma espécie de negação daquele ser e de seu estado. Não se sabe se por medo ou pela habitual indiferença ao outro. O fato é que todos se desviam daqueles olhos negros manchados de tristeza.

As falas se acumulam. Todos têm seus objetivos, suas rotas. Aprenderam, em cursos básicos pela televisão, que é preciso não admitir desvios, mudanças de rota. À frente do ponto de ônibus, igualmente só, um senhor bebe cachaça com cerveja e fuma compulsivamente. A fumaça tenta fazer desenhos nos pingos, mas logo se espraia. O olhar firme e as rugas levam a crer que mastiga algum amargor. Tem um ar altivo, típico dos homens solitários e desesperados.

Eles não se observam, não se tocam. E mal sabem que estão sendo observados. É certo que só as solidões podem se encontrar. Que só um ser solitário beija as tristezas alheias e as toma para si. Volta-se para a menina novamente. A correria continua. Todos procuram cumprir suas tarefas diárias e passar ilesos pelo dia, sem tormentos, sem tragédias. Dormir, acordar, café, aula, trabalho, uns telefonemas, algumas refeições e dormir. Assegurar a falsa segurança diária parece trazer algum conforto.

A menina e o senhor continuam em seus rituais de silêncio. Ela chove por dentro, ele tenta apagar a memória, a julgar pela quantidade de cachaça que já bebeu. Um cão, com apenas três pernas e totalmente ferido, atravessa a rua encharcado. O observador tentar decifrar as imagens. Quer ver além do que está à sua frente. Procura santificar seus deuses disfarçados e imóveis. Não se aproxima da menina, não senta para beber com o senhor. O cão se aproxima do mendigo que dorme sob a marquise e lambe seu rosto, num gesto inequívoco de devoção. Ao chegar à sua casa, sentiu nojo da assepsia hipócrita que o cerca. Chorou.

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