O nosso tempo – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 27/03/2013

O NOSSO TEMPO

“E o futuro é de sangue, de aço, de vaidade”, escreveu Hilda Hilst no começo dos anos 1970. O verso faz parte de uma série intitulada “Poemas aos Homens do Nosso Tempo”, em que Hilda dedica vários poemas a pessoas que enfrentaram regimes de tirania, como o poeta espanhol Federico Garcia Lorca e a poeta russa Natália Gorbanievskaya. Escritos sob o jugo da ditadura militar brasileira em seus anos mais pesados, os poemas falam, tristemente, dos imperativos do poder, mas entre a tristeza se anuncia alguma esperança: “O povo não é esse pretenso ovo que finge alisar, essa superfície que jamais castiga vossos dedos furtivos. Povo. Polvo. Lúcida vigília. Um dia.” Assim, sutilmente, Hilda Hilst antevia também uma revolta, uma agressão por parte dos oprimidos a seus ditadores. Essa lúcida vigília, apesar de frágil, está por aí. Como sabemos, a transição entre a ditadura e a democracia no Brasil foi lenta, gradual, sem um grande enfrentamento. Hoje, vivemos as benesses de um dito regime democrático. Mas que democracia é essa que também nos achaca, também exclui da dignidade milhares de pessoas? Que democracia é essa que mantém a manipulação das informações, que homogeniza tudo sob os auspícios da moda, do consumo, da cultura de massa? Que impõe uma liberdade bastante questionável, pois basta sair do padrão, do negócio, da media, e a liberdade se esfacela. Como diria o filósofo Alain Badiou, o que temos hoje é a “liberdade de todos fazerem as mesmas coisas, debaixo das mesmas regras”. Ou seja, a liberdade de pertencer, de se adequar, de fazer o jogo imposto por todo um sistema de forças econômicas, políticas e sociais que consegue se disfarçar como algo sempre benéfico, mas que além de alijar muita gente dos benefícios, molda substancialmente aqueles que fazem parte do jogo. A lúcida vigília dos excluídos está sendo constantemente atacada por aqueles que acreditam na exclusão como algo natural; vide as recentes polêmicas no congresso com as comissões de direitos humanos e a do meio ambiente. Porém, a hora é de mais lucidez. Apesar dos percalços, é preciso manter a força também cantada por Hilda Hilst: “Lúcidos? São poucos. Mas se farão milhares se à lucidez dos poucos te juntares”.

Rubens da Cunha

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