NO SUPERMERCADO, por Marco Vasques

NO SUPERMERCADO

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [01/04/2013]

Pensou em pegar a cestinha. Não. Não seria suficiente. As mãos trêmulas. O tempo é implacável com todos. Passa por ele uma jovem de pele macia e andar sensual. Não. Não teria a mínima chance. O prazer, para ele, fica na retina e na imaginação. A precariedade da vida é universal; por isso vive alertando aos netos que não percam tempo com filosofia, arte, política ou qualquer outro sistema que se invente para apascentar a chegada da morte.

O corpo não responde mais aos instintos, mas a imaginação o atormenta diariamente. Viver precede a tudo. Precede? Mesmo? A velhice. O mundo. A caturrice da vida. Tem ciência de que crianças ficam cegas por imaginar um prato de comida e, ao mesmo tempo, sabe que se joga fora uma quantidade de alimentos suficiente para matar a fome do mundo. Não bastasse a nítida incongruência com os alimentos, ainda estamos expostos a um sistema financeiro excludente, um sistema educacional regido pelo mercado privado, um sistema de saúde público precário e risível, enfim, a selva das cidades e a transformação de tudo em mercadoria estão ao nosso redor. Nem o afeto escapa ao interesse. Após completar oitenta e dois anos, chega à conclusão óbvia de que tudo na vida é regido por sexo e pelo exercício do poder. Tem dúvidas sobre seus pensamentos.

Pega o carrinho e, trêmulo, anda irritado por entre o corredor de chocolates. Tenta lembrar o que veio comprar; no entanto, a memória também já não ajuda. Norberto Bobbio tem razão ao dizer que a velhice é saco. Anda, com toda a dificuldade, por entre pilhas e pilhas de mercadorias. Tudo à venda. Todos os preços. As coisas produzidas em escalas de qualidades distintas para diferentes tamanhos de bolsos. Não há lugar mais excludente que esses grandes centros de compra. Por quê? Tantos livros lidos. Sobrou algum na memória? Tenta. Parece relembrar algo. Não lembra. Nada a comprar.

Chega à conclusão de que não recorda, definitivamente, o que veio fazer no supermercado. Uma lágrima surge. Isolado de si mesmo. Não mais dono de suas vontades. Perdido no meio de um turbilhão de gente comprando coisas que não têm mais nome para ele. Deu para esquecer o nome das coisas também. Olha uma senhora, de brincos e seios enormes. Ela compra tudo que lhe passa à frente. O tempo. As horas. O que estaria fazendo mesmo? Não encontra um rosto conhecido. Alguém vem lhe oferecer ajuda. O senhor deseja alguma coisa? Está tudo bem? Mora aqui perto? Tem família? Tem um telefone de alguém que possamos ligar? Seu nome? Senhor? Senhor? Está ficando tarde e precisamos fechar o supermercado. Senhor, está tudo bem?

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