A mentira – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia, em 03/04/2013

A mentira

“A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”, disse Mario Quintana. A mentira não é apenas uma senhora esquecida, mas uma senhora com mania de perseguição, que faz malabarismos para não ser pega. A mentira em nós tem a função de disfarce, de escamoteação. Mentimos para nos defendermos. A mentira é o Forte Apache, nossa Fortaleza de Anhatomirim. Mentimos para protegermos, para conquistarmos. A mentira tem mil faces, tem pernas curtas, seduz porque não se fixa, não se limita a ser uma só, como a verdade. Mas o que é a verdade? Por que dar a ela esse status de boa moça, enquanto a mentira é a vilã, a bruxa, a Nazaré Tedesco que nos habita? A mentira é quase sempre desmascarada, exposta, humilhada em praça pública, mas, hábil que é, retorna, encontra abrigos múltiplos em cada novo humano que nasce. Quando aprendemos a mentir? Qual o limite entre a mentira e a imaginação? É nessa névoa que seguimos, que fazemos nossos percursos diários entre a mentirinhas inofensivas e as grandes e perigosas mentiras corruptoras, alienadoras, estupradoras da verdade. Mas o que é a verdade? A outra face da mentira? A mentira que lembrou de acontecer? Do latin mentita, dissimulação, Capitu? Salomé? Eva? A mentira como predicado feminino, mas e as mentiras dos homens? A mentira como predicado humano, incondicional, atávico, paradoxal porque o mais verdadeiro. Todos já caímos nessa armadilha, todos já experimentamos esse pharmakon: remédio e veneno. Salvação temporária até que sejamos pegos nas redes, malhas finas, arapucas da moral, da ética, das auditorias. Seguimos, confessando a verdade, ou inventando verdades para sobrevivermos, pois ela, a verdade, muitas vezes está bem escondida à sombra das mentiras. Se não sabemos bem o que seria uma verdade, ou A Verdade, como saberemos o que é a mentira? Como saberemos identificar nos outros essa desordem em relação aos fatos? Em nós, ao contrário, sabemos sempre quando estamos mentido, sabemos sempre que nos metemos no jogo duplo, triplo da dissimulação. A mentira engana muito, mas não consegue enganar a própria consciência de quem a produz. Excetuando-se casos patogênicos, o mentiroso sempre sabe a verdade.

Rubens da Cunha

 

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