AQUELAS DUAS – por Marco Vasques

AQUELAS DUAS

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [08/04/2013]

Uma chuva fina cobre a Escadaria do Rosário. As duas estavam na pequena marquise do Teatro da Ubro. Nada de padres e seus sermões podres de preconceitos. Nada de reza ou de beijos familiares, sempre tão distantes. Há uma dor que eleva o olhar das duas moças. Existe, também, uma troca de delicadezas somada a pequenas carícias. O gotejar constante da garoa, espalhada por um vento insistente, faz com que o pequeno espaço que elas escolheram para se proteger se torne inútil.

A água escorre em seus rostos. Seriam anjos disfarçando a chuva de lágrimas? O frio parece avolumar a tristeza. Elas se abraçam e se beijam. O mundo poderia parar naquela paixão irrestrita. Anoitece. Luzes rebatidas nas calçadas encharcadas. E elas continuam se protegendo com palavras de carícias. Uma força, um arrebatamento prazeroso passava de um olhar a outro. Numa simples troca de olhar era possível captar a essência dita no silêncio. Aquelas duas, assim, juntas, ensinam a nós o exercício do fascínio. A poesia do amor ou simplesmente o livre exercício do prazer assustando alguns passantes. Mas o que será a vida destituída das belezas distintas?

A chuva diminui. Descem em direção à avenida Hercílio Luz. O que fazer? Decidiram tomar um conhaque com cerveja para esquentar. Entraram no bar com naturalidade. Sentaram ao fundo de um longo corredor. No ambiente, muitas televisões. Numa, passava uma partida de futebol. Noutra, um programa policial e, à frente delas, um programa discutindo o infeliz do Feliciano. Falava-se de tudo. Democracia, a força dos partidos, moral, família, religião. Enfim, para tudo se tem um modelo pronto, definido e definitivo. Elas observam o vômito das verdades.

No silêncio, em três lances de olhares, era possível detectar a origem da discussão e problematizar o principal aspecto do noticiário. Aquelas duas sabem que a questão é mais embaixo, que o tal do infelicíssimo Feliciano não é exatamente o problema. Ele é apenas a fotografia de um álbum de milhares e milhares de outras fotografias idênticas. A imagem de um discurso hipócrita pelo qual somos dominados. Feliciano é legitimado por um batalhão que, pasmem, em nome de uma suposta defesa da vida, da família, da moral, da religião e da divindade é capaz de matar, expulsar, excomungar, apedrejar, negar o corpo e assassinar o menor indício de diferença. Aquelas duas se olham novamente com um ar terno, porém triste. Levantam-se. Pagam as duas cervejas e os dois conhaques sorvidos sem culpa alguma. Abraçam-se. Mergulham novamente na chuva. Eram anjos disfarçando as lágrimas na chuva.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: