Acordar. Recordar. Discordar. Concordar. – Rubens da Cunha

Crônica de Rubens da Cunha publicada no Jornal A Notícia em 10/04/2013

O que seria esse “cordar” atrás dessas palavras do título. Seria um resquício do velho coração em latim: dare core, dar o coração, crer? Mas o latim é uma língua morta, que fantasma-se em muitas de nossos vocábulos, assim, ir atrás dos velhos parentescos das palavras requer mais tempo e espaço do que nos é permitido aqui. Qual o jeito então? Inventar, ventar dentro da imaginação e brincar de encontrar outros significados para essas palavras. Se “cordar” pode ser passar uma corda em tudo, então podemos pensar a partir dos prefixos.

Acordar, a-cordar: afastar a corda do sono, do sonho, sair da pequena morte que nos acontece todo dia. Acordar é desamarrar-se, afastar-se das cordas.

Recordar, re-cordar: repetir a corda, trazer novamente à tona aquilo que nos habita dentro, como se fosse um passado presentificado a cada lembrança, a cada recordação. Recordar é um ato mais comum aos que estão acordados, no entanto o que é o sonho? Seria um re-cordar impensável? Seria um re-cordar que não aguentaríamos normalmente? Re-cordar, repetir a exaustão o mistério, a vida que se esvai, lutar contra o esquecer, esse desamarrar-se que muitas vezes nos salva.

Discordar, concordar: dis-cordar, con-cordar. Gêmeos contrários. Juno que nos impõe modos de vida, modos de visão: aceitar a corda, recusar a corda. Se discordamos, nos impomos a uma ideia contrária àquela que temos como certa. Dis-cordar é lutar, é estabelecer outros parâmetros, novos ângulos de visão, novas perspectivas. Por isso, ditaduras, ou pensamentos ditatoriais, discordam tanto de seus discordantes, impõem o silêncio, as amarras como método de sobrevivência. Discordar é provocar rachaduras na totalidade. Por outro lado, concordar é participar do grupo, da opinião, é colocar-se de um lado ou outro, ou sobre o muro, mesmo discordando de tudo, concordamos em discordar: não há saída. Estamos sempre eivados de concordâncias, mesmo que inconscientes, mesmo que impensadas: concordamos com os costumes, os vínculos, a cultura em que estamos inseridos. Con-cordar: amarrar-se a um ponto de vista. Estabelecer a concórdia. Corda que nos permite viver em paz

Rubens da Cunha

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