Crônica da Semana – Por Marco Vasques

PROMESSA DE INFÂNCIA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [15/04/2013]

O hospital carrega nas paredes uma espécie de tormento gritante. Uma brancura de desesperos. Ele, sentado, imerso no silêncio da espera, pensa em reencontrar sua amiga, embora os médicos já tenham alertado que há pouquíssima possibilidade de Marina retornar da sala de cirurgia. O olho mareja. A garganta aperta. Um incômodo desequilibra o corpo. Ele não sabe o que dizer para si mesmo. Vêm à cabeça duas indagações. Como? Por quê? Sai do seu abismo provocado por enfermeiros e médicos que tentam recuperar um paciente de uma parada cardíaca. Não conseguem. Observa, atentamente, a maneira frívola e muitas vezes até descontraída com que enfermeiros e médicos se relacionam com a morte.

Herdeiro dos tormentos cristãos, não conseguia tirar da cabeça as imagens infernais narradas pelos padres e por sua mãe. Não havia dia em sua infância em que a divindade suprema não castigasse seus atos. Historiador e cientista, ele sabe muito bem das invenções das religiões e da falibilidade do organismo vivo. Contudo, há um ponto em que a razão se esvai em queda livre. Nuvens embaralham a visão. A ausência de Marina ultrapassa o entendimento, pensou antes de levantar. Quatro horas de aguardo, a esperança começa a esmorecer. Levanta-se. Caminha de um lado a outro. Sempre a presença das paredes brancas, enormes, acusando o vazio que se instaurou nele.

Tenta obter informações. Consegue saber apenas que o procedimento vai demorar. Houve complicações. Marina andava muito fragilizada mesmo nos últimos meses. Uma doença simples, uma bactéria comum; enfim, não entendia como as coisas chegaram ao ponto em que chegaram. Na verdade, não é muito difícil identificar as razões. Diagnósticos equivocados, tratamento errado, medicação ineficaz e meses de espera por uma consulta. Marina não está sozinha na saga que se tornou a busca pela saúde pública no Brasil.

Agora estava ele, ali, num bom hospital privado vendo os familiares de Marina tentando reparar a sucessão de erros. Nervoso, começa a andar pelos corredores do hospital. Espia, timidamente, os quartos. Crianças, adolescentes, velhos. Não há idade para a morte. Se morre a toda hora e a todo momento. Mais algumas horas se passam. Enfim, parece que terminaram o procedimento. Marina não resistiu. É apenas um corpo pálido coberto por um lençol branco. Abraça Dona Arlete, a mãe de Marina, e fica no mais absoluto mutismo. Não há palavra que se diga, não há coisa se faça. Faz um pedido aos familiares. Ele deseja banhar o corpo esverdeado e acender os círios que iluminarão o velório. Nada religioso ou místico. Apenas uma promessa de infância.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: