O Frio – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada em 17/04/2013 no Jornal A Notícia

O FRIO

Ele está chegando. Sua chegada liberta os casacos e os cobertores do guarda-roupa. O império da naftalina esvanece com a sua chegada. Seus defensores estão mais alegres: agora se alimentarão melhor, caminharão elegantes pelos dias e noites. Terão o sono dos justos. Quem sabe haverá dias de sorte e a neve cairá nos pontos mais altos da serra. Os seus defensores planejam viagens a Gramado, a Campo Alegre, a Rancho Queimado, a Urubici, pois lá no alto ele estará mais pleno, mais firme, mais europeu ou norte- americano. Os seus defensores sabem que ele vem pouco aqui, e que, algumas vezes, ele não fica muito tempo, por isso aproveitam tudo o que podem. Fazem festas para a sua chegada. Muitos debandam para Lages para se locupletarem de pinhões e shows duvidosos. Os seus defensores aconchegam-se nas camas, nos quartos, suam menos quando fazem amor. Os seus defensores só têm pena dos abandonados, dos que estão sem casa, à mercê das marquises, pois sabem que quando ele chega, é preciso estar protegido para que seu carinho gelado na pele não seja uma agressão.

Como quase tudo na vida é uma dicotomia, do outro lado estão os seus detratores. Gente que treme só de pensar que terá que levantar da cama, que terá que enfrentar rinites, resfriados, gripes. Que terá que enrolar cachecóis no pescoço e agasalhar-se ao ponto de parecer uns dez quilos mais gordo. Os seus detratores acham que a mobilidade fica muito prejudicada, toda janela aberta é um soco, todo dia é uma penúria de tremores, plenos de raiva daquela sensação estranha sobre o corpo. Claro, a raiva ainda é aumentada com os clichês pronunciados pelos seus defensores: “Basta agasalhar-se melhor ou movimentar-se um pouco que ele passa”, ou ainda: “Quando ele está aqui tudo fica melhor: trabalhar, comer, etc etc”. Os seus detratores abrem apenas um sorriso congelado de profundo ódio e seguem, sabendo que daqui a uns meses serão eles os livres e os outros aprisionados. Logo o jogo se inverte. Até lá, muitos de seus detratores, que não podem viajar, fugir fisicamente, têm como defesa mandar a alma para o paraíso: Teresina, Manaus, Fortaleza, Senegal, lugares míticos onde o frio nunca conseguiram entrar.

 

Rubens da Cunha

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