Crônica da Semana por Marco Vasques

CASA DE MÁSCARAS

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [22-04-2013]

Carlos Drummond de Andrade já disse que a poesia de Péricles Prade “alcança um ponto alto de expressão existencial e beleza de forma”. Ele tem completa razão, pois se posicionar frente a frente à obra pradeana é entrar num exercício denso de leitura, que pressupõe um leitor descansado e apto ao trabalho de invadir as memórias, as infâncias, os passeios, as mortes, as vidas, as fraturas; significa também dançar com a ironia, com o corte preciso das imagens e mergulhar no mundo do fantástico, do maravilho. Se esse leitor tiver o aporte de leituras que envolvam o ocultismo e o esoterismo, em suas variâncias como a cabala, a gnose, a alquimia. Se conhecer mitologia, religiões, artes plásticas, filosofia, seu trabalho de invasão pode ser mais amplo.

Caso não tenha tanta informação, o leitor pode entrar na linguagem de Péricles Prade pela intuição, pelo acariciamento que suas imagens tortas, viscerais, delirantes e delicadas, construtoras de rituais que invadem o leitor. A poesia do novo livro de Prade, Casa de Máscaras, publicado pela editora Iluminuras, que será lançando na quinta-feira próxima, na Fundação Cultural Badesc, reafirma sua capacidade de síntese, seu domínio preciso da linguagem e a singularidade de sua arquitetura poética. Poeta da invasão, da ruptura, do choque, Prade é imune aos modismos e à pasmaceira que domina grupelhos que fazem poesia para regozijo social.

Se toda arte é boa quando advém da necessidade da criação, como afirma Rilke, podemos dizer que Casa de Máscaras vai além, porque faz com que o leitor, ao se defrontar com o primeiro poema, sinta uma angustiante necessidade de seguir livro adentro como se fosse serpente perdida num labirinto de espelhos. Ou seja, somos habitados pelas máscaras e o corpo do leitor se torna a casa de cada verso.  O tom confessional, onde o eu-lírico retoma seu acento na poesia de Prade, já presente no livro Sob a Faca Giratória, reaparece em Casa de Máscaras em poemas como “Imagem”, “Afetos” e “Nem Toda Casa”.

A curvatura orobórica, símbolo máximo da escritura de Péricles Prade, inicia uma incineração mítica rumo ao retorno, ao princípio; portanto, a chama eterna de cada poema permanecerá sem arestas ou frestas corruptíveis. Seus voos hierofânicos (Mircea Eliade) oferecem ao leitor mundos dentro do mundo que são capazes de sustentar terremotos com a língua, para usar a precisa metáfora pradeana. O conjunto de poemas de Casa de Máscaras tem a capacidade de jogar o leitor no território do impacto, do estremecimento, do ígneo, ao mesmo tempo em que coloca o leitor num cativeiro para a aprendizagem de voos. 

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