Casa de Máscaras – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 24/04/2013

CASA DE MÁSCARAS

Reverberação poética a respeito do novo livro de Péricles Prade

Casa de Máscaras: Oikos. Oiken. Persona: pele abstrata, rosto que se nos prende à cabeça. À casa de máscaras me dirijo, feito um gentio, um esbarrado nas palavras doceagudas, doceaguadas, desaguadas do poeta. Sou um irmanando nesta casa, pois “para o poeta cego / o paraíso é olho míope / do universo perdido”. Assevero minha estranheza, meu fascínio, minha dubiedade frente a tantos silêncios da página quase em branco. Detenho-me naquelas feridas negras mais ao alto da página, aquelas a que chamam poema, mas que aqui, nessa casa de máscaras, podem ser um gladiador, uma borboleta, um leão, um anjo exposto: “desses que andam / à solta por aí”. A casa de máscaras tem 15 cômodos. Em cada um deles me acalento, me resguardo. Em cada um deles me desfaço em sonho, em sabedoria, em ilusão e descubro, lentamente, que em cada cômodo da casa há cinco máscaras, coloco-as sobre meu rosto humano e me transfiguro. Sou um todo “corpo que é puro osso / eixo que na terra / com o pescoço branco / de cavalo se parece”. Galopo mascarado por dentro da casa. Sou um leitor equino aqui, mais ali recebo a lição da águas, “pois a água se intui / ainda que alguém disfarce / sua oculta natureza”. A Casa de Máscara inunda-me. Torna-me máscara e casa também: e chacal, e árvore de maio e crença e jogador e lâmina. Engulo os substantivos e predicados da casa, seus cantos atravessados pelo mistério e pela clareza. Seus paradoxos que se me abrem, flores poéticas que são, e fazem de mim, um habitante mais vasto, como se minha nudez transfigurada também fosse uma máscara, como se o que enfrento quando meus poros leem tais agouros, fosse aquele silêncio que há entre o rosto e a máscara. Aquele túmulo de cristal que abriga a lágrima e a alegria. Só nessa Casa de Máscaras é que descubro que “nem toda casa é muralha de fel, / teia de artifícios, raiz crescida / como nó maligno na garganta”, e que eu, e qualquer outro que venha habitar a casa, poderemos todos nos acostar, feito anjos, em cada uma dessas máscaras e, amplamente, nos desmascararmos.

Rubens da Cunha

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