Crônica da Semana, por Marco Vasques

O SORRISO DE NADINA

Por Marco Vasques

Publicado no jornal Notícias do Dia [29/04/2013]

Nadina é mais uma daquelas personagens invisíveis do Córrego Grande. Existe um paradoxo terrível nisso tudo. Porque na verdade essa senhora de cabelos longos, rugas em abundância e sem dentes – que abrigam seu sorriso triste – vive à mostra dia e noite nos bares, restaurantes, padarias e pelas ruas do bairro. Pede alimentos vencidos aos donos dos estabelecimentos comerciais, senta-se às calçadas e come, despudoradamente, numa sofreguidão incrível, os restos, as sobras, as coisas fora da validade que só podem ser consumidas por pessoas inválidas, moradoras das bordas. Essa gente que os filósofos e os homens das letras chamam de viventes das margens.

Na última semana, Nadina surpreendeu um grupo pequeno de pessoas indo à feira, que acontece todas as quartas e sábados no terreno ao lado do posto de saúde. O espanto ocorreu porque ela apareceu com as roupas limpas, os dentes refeitos, os cabelos escovados e, a julgar pelo tamanho da compra que fez, com algum dinheiro no bolso. Pronto. Não deu outra. Aquela figura estranha que vivia num abandono constante se tornou o assunto do bairro durante alguns dias. Nadina, que noite e dia era ignorada, passou a ocupar lugar na agenda daqueles que sempre a ignoraram.

As especulações eram as mais fantasiosas possíveis. A primeira tese foi a de que algum parente, ou conhecido, havia morrido e deixado uma sobra para que Nadina viesse a ter algum conforto na vida; outra analisava as deambulações destes seres enigmáticos que se negam a entrar na ordem das coisas justamente porque eles sabem que os mecanismos de repressão estão muito bem disfarçados na matemática rotineira dos dias aparentemente ordeiros. Não faltaram opiniões acerca do que havia ocorrido. Teria ela achado um bilhete premiado? Alguma mala de dinheiro? Estaria ela escondendo, por algum motivo escuso, alguma fortuna antiga? A mendicância seria real ou um disfarce? Teria ela feito parte de algum roubo, de um assalto a banco?

O fato tomou proporção gigantesca nas redondezas, chegando aos bairros Agronômica, Itacorubi, Pantanal e Trindade. E o mais intrigante e surpreendente foi saber que um morador da região, estudante de Ciências Sociais, ao verificar o interesse de todos por Nadina, tratou logo de formular uma tese e estudar o caso com o intuito de se doutorar em comportamentos inerentes ao olhar humano. Entrevistou pessoas, criou método de análise, leu sociólogos e filósofos. Defendeu a tese. E Nadina, agora destrinchada em estudo acadêmico, retornou ao esquecimento. Dizem que quando soube do fato, ela arrancou os dentes para melhorar o sorriso.

 

 

 

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