ESTRANGEIRO AQUI COMO EM TODA PARTE – Crônica de Rubens da Cunha

Crônica publicada no Jornal A Notícia em 08/05

ESTRANGEIRO AQUI COMO EM TODA PARTE

Pequenos atavismos sentimentais atravessam a tarde chuvosa: duas solidões, um pouco de ciúme, aquelas quatro saudades de sempre. Tudo se concentra, entre o imaterial e o imaturo, dentro do peito. As decisões adiadas, ou procrastinadas, para usar uma palavra mais escura. Outras decisões estagnadas, sem que se tornem ações efetivas para a vida. Chove há algumas horas.

No livro aberto, Álvaro de Campos grita: Eia! Eia! Eia! Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria! Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do inconsciente! E todo o resto também é grito, não de dor, mas de dúvida, de entremeios e de entrelugares que se assomam pelo corpo. Frágil corpo que pouco se revigora nos domingos chuvosos.

Pensar sobre os nervos doentes de Álvaro, e perceber que as saudades diminuíram, mas aumentaram as solidões. Olhar as paredes nuas da casa e desnudar-se também, talvez em outro grito amargo de Álvaro de Campos: o que os outros sentem é uma casa com a janela fechada. E ser o outro do outro então é sempre ser uma casa com janelas fechadas. Mesmo que os sentimentos atávicos pareçam ser pelo outro, para o outro, tudo, quase sempre, não passa de vaidade. Vaidade, essa carne que se carrega por sob a carne perecível.

Melhor seria recomeçar esse delírio, melhor seria dizer que apenas um atavismo sentimental atravessa a tarde chuvosa: a vaidade. Sempre arguta, sempre à espreita e sempre ferida nos pés. A vaidade manca e disfarça a manqueza. Será que Álvaro gritou e guiou sua vaidade também? Gritou, mas vaidoso que era, direcionou o grito aos homens: Ah, pobre vaidade de carne e osso chamada homem, não vês que não tens importância absolutamente nenhuma? Constatar a desimportância, desistir das antigas ilusões de importância, saber ser mais vazio do que vaidoso, estabelecer contato direto com a vida nua que se esvai nos delírios poéticos perpetrados nos domingos chuvosos.

Nada disso se arvora dentro do sentido, dentro da razão. O que se tem é uma agrura feita de palavras, sem método, sem força, sem que Álvaro ou qualquer outro Pessoa possa fazer alguma coisa, a não ser certificar-se e doer-se por saber que se é estrangeiro aqui como em toda parte.

Rubens da Cyunha

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2 respostas para “ESTRANGEIRO AQUI COMO EM TODA PARTE – Crônica de Rubens da Cunha

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