Crônica da Semana, por Marco Vasques

BUNDÓPOLIS E OS PIOLHOS DEMOCRÁTICOS 

Por Marco Vasques 

Publicado no jornal Notícias do Dia [13/05/2013]

            Em Bundópolis todos querem opinar sobre tudo. Não há assunto que não tenha que ser debatido com intelectuais, políticos, artistas, operários, professores e mais uma centopeia de asseclas metida a sabichona só porque leu meia dúzia de livros. É uma verdadeira panaceia. A última de Bundópolis foi a descoberta de uma colônia de piolhos cabeludos adeptos à democracia. O curioso é que os ftirápteros têm demonstrado mais agudeza de pensamento que os bundosenses. Eles, os piolhos, entenderam que a democracia é uma farsa e que, quase sempre, a defesa do regime vem disfarçada do seguinte pensamento: “o que eu digo é a democracia.”

            Na verdade, para ser honesto com os bichinhos, é preciso dizer que foi Porrilo, o piolho cabeludo que usa peruca, quem destruiu com a democracia, dizendo coisas simples e observáveis até mesmo ao mais míope dos seres. Enquanto todos não tiverem acesso à saúde, à educação, à alimentação, à moradia, ao lazer, à cultura, ao transporte, enfim, a toda a sorte de coisas necessárias à sobrevivência, a democracia nunca passará de uma maneira arrevesada de ditadura.

            Argumentou que não basta o acesso a tudo o que citou, porque muitos vão arguir que há escola pública, hospital público, enfim, o famigerado serviço público para a piolhada pobre. Porrilo, no púlpito, defendeu que todos os serviços essenciais e primários só poderão ser democráticos se oferecidos a todos, indistintamente, e decretou morte à educação privada, à saúde privada, à especulação imobiliária e à concentração de renda. Só em uma sociedade em que todos possam usar os mesmos hospitais, as mesmas escolas, segue nervoso o sábio piolho, existe a possibilidade de democracia.

Sabemos, avisa inflamado, que o filósofo, dramaturgo e novelista Alain Badiou ― e pede o favor para que o público não confunda com outro francês, Pierre Bourdieu ― já descortinou a falência da democracia. Ele analisa as entranhas do discurso que se pretende democrático e provou, como um matemático, que os mais calorosos defensores do regime não se deram conta de que é preciso rediscutir esse modelo e não o afirmar.

Porrilo, cheio de furor libertário, se inflamou e solicitou a participação de todos na revisão democrática, mesmo sabendo que seria impossível ouvir toda a peble cabeluda. Chegou mesmo a se dizer o legítimo representante de milhares de pessoas que sequer sabem da sua existência. Porrilo talvez não tenha percebido ainda, mas à sua direita acontecia a revolta das tatuíras monarquistas, e à sua esquerda a revolta das pulgas de camelo, maxistas,  que incendiavam o oceano.

 

 

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