Crônica da Semana, por Marco Vasques

DONA LINDOMAR E A ONU

Por Marco Vasques 

Publicado no jornal Notícias do Dia [20/05/2013]

A velhinha do Córrego Grande pensou já ter visto de tudo na vida. Em termos de televisão, nem se fala, já que passou parte da vida na frente da telinha. Só para o leitor ter uma ideia, faz alguns anos que todas as noites ela se despede de William Bonner como se fosse íntima do galã da notícia. Dona Lindomar passou a semana pensando na fraude do leite. Chegou à conclusão que no Brasil nada escapa à pilantragem. É suco contaminado com produto de limpeza. É banco oferecendo crédito para gente sem crédito. É mulher pelada em tudo o que é propaganda. É médico cobrando consulta em hospital público. É político usando o bem público como se fosse privado, enfim, nem artistas e intelectuais escapam da falcatrua generalizada que se instaurou no Brasil.

O mais triste é que tudo fica bem atenuado com ironias simples e com a tentativa de um humor negro nada engraçado. No entanto, esta semana, Dona Lindomar desligou a televisão porque chegou ao limite do tolerável: a notícia era a de que a Organização das Nações Unidas (ONU) tivera a inventiva e brilhante ideia de incentivar o mundo a comer insetos para diminuir a fome no planeta. Então é assim! A reportagem teve dois momentos curiosos. Na primeira parte, mostrava uma gente bonita, rica e branca comendo isentos por prazer, exotismo e curiosidade. Na segunda, mostrava uma gente esquecida, pobre e negra, que vive comendo inseto para alimentar o banquete de poucos.

Dona Lindomar não acreditou no absurdo e pensou que até o intelectual de boteco mais limitado de Bundópolis seria capaz de se indignar. É sabido que a principal causa da fome no mundo não é a falta de alimento; que se produz, por ano, mais grãos do que o planeta necessita; que o sistema financeiro faz com que produtores deixem suas safras apodrecerem propositadamente, pois é melhor perder tudo a não obter o lucro desejado; que a concentração de renda existente no mundo deixa o grosso da população com um salário risível; que vivemos uma ditadura econômica violenta; que o dinheiro movimentado pela indústria bélica seria o suficiente para minimizar a desigualdade social entre os povos; que a corrupção no setor público é quase que generalizada e que o montante de verba desviada seria o suficiente para tornar a educação, a saúde, a alimentação e a habitação uma realidade para todos; que a manutenção da fome, da desigualdade social, da pobreza, da miséria, do analfabetismo é uma estratégia do modelo capitalista neo-neo-liberal, sob o disfarce desse lençol translúcido chamado democracia. E os pobres dos insetos é que pagarão a conta e se tornarão a solução?

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